Parques Nacionais da África do Sul: uma introdução prática

South African National Parks
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“Você não pode comprar algo que já é seu”. Esta frase foi um antigo slogan do South African National Parks, entidade governamental que gerencia os parques nacionais na África do Sul. Também foi a abertura da minha dissertação de mestrado, defendida em 2005 na ECA-USP. Neste post, vamos definir SANParks, dar uma noção geral sobre cada um deles, como explorá-los e qual a importância para quem viaja rumo à África do Sul.

Parques Nacionais da África do Sul, na visão da entidade

South African National Parks, ou SANParks, é a autarquia que regulamenta, protege e gerencia todas as unidades de conservação sob administração federal na África do Sul. Para maior clareza, transcrevemos abaixo as definições da própria entidade.

O SANParks está trabalhando para ser um importante conector entre as sociedades. Na visão de hoje, como “um sistema de parques nacionais sustentáveis, conectando a sociedade”.

Como autoridade líder em conservação, o SANParks é uma entidade pública sob a jurisdição do Departamento de Assuntos Ambientais, onde a conservação inclusiva, em oposição às políticas de exclusão anteriores, é central para o avanço das políticas em conformidade com o Quadro Nacional para o Desenvolvimento Sustentável e o Plano Nacional de Desenvolvimento.

O SANParks gerencia um sistema de 19 parques nacionais funcionais em sete das nove províncias da África do Sul, com uma área total de pouco mais de 4 milhões de hectares, compreendendo 67% das áreas protegidas sob gestão estatal. O SANParks de hoje é reconhecido como líder mundial em conservação e gerenciamento de áreas protegidas. Nas últimas duas décadas, sete novos parques nacionais foram estabelecidos, totalizando mais de 700.000 hectares, com grande parte disso em biomas pouco conservados, como o Succulent Karoo e Fynbos.

A Lei Nacional sobre Áreas Protegidas de Gerenciamento Ambiental determina que o SANParks crie destinos para o turismo de natureza, mas que não seja prejudicial ao meio ambiente. Como o SANParks é principalmente uma entidade de autofinanciamento, gera aproximadamente 80% de seu orçamento operacional através de seus negócios de ecoturismo; o cumprimento de seu mandato de conservação depende fortemente de operações turísticas prósperas e sustentáveis.

As operações comerciais do SANParks são baseadas em três pilares importantes:

Conservação – o principal mandato da organização é a conservação da biodiversidade da África do Sul, paisagens e bens patrimoniais associados, através de um sistema de parques nacionais.

Turismo responsável – a organização tem um papel significativo na promoção do turismo de natureza da África do Sul, ou negócios de ecoturismo voltados para os mercados internacional e doméstico. O pilar de ecoturismo, fundamental na estrutura comercial da entidade, prevê as receitas auto-geradas por tais operações comerciais, necessárias para complementar o financiamento governamental ao gerenciamento de conservação. Um elemento significativo do pilar de ecoturismo é a Estratégia de Comercialização, que o SANParks adotou através da implementação de Parcerias Público-Privadas, para expandir os produtos turísticos e a geração de receita adicional para financiamento da conservação e desenvolvimento socioeconômico.

Desenvolvimento socioeconômico – SANParks tomou a decisão estratégica de expandir seu papel no apoio ao desenvolvimento das comunidades vizinhas, como uma entidade do estado em desenvolvimento. Além disso, é necessário que o SANParks atue nas esferas internacional, nacional e local, em apoio à conservação do patrimônio natural e cultural da África do Sul por meio de seu investimento social corporativo. Deve garantir que uma ampla base de sul-africanos participe e se envolva em iniciativas de biodiversidade, e que tenham uma existência sinérgica com as comunidades vizinhas, para seu benefício educacional e socioeconômico, permitindo assim que a sociedade em geral seja conectada aos parques nacionais.

O SANParks está em uma trajetória positiva no sentido de tornar o gerenciamento de sua propriedade de conservação e turismo relevante para os cidadãos da África do Sul e do Mundo, garantindo a governança cooperativa e o fluxo contínuo de benefícios socioeconômicos.

Nossa visão: Um sistema de classe mundial de parques nacionais sustentáveis, ​​reconectando e inspirando a sociedade.

Nossa missão: Desenvolver, proteger, expandir, gerenciar e promover um sistema de parques nacionais sustentáveis ​​que represente ativos do patrimônio natural e cultural, por meio da inovação, excelência, turismo responsável e benefícios socioeconômicos para as gerações atuais e futuras.

Explorando os parques nacionais da África do Sul

South African National Parks

Embora todos os 19 parques do sistema tenham particularidades e atrações que justifiquem a visita a cada um deles, muitos são remotos e fora do alcance ou do interesse da maior parte dos visitantes internacionais. Quem visita a África do Sul pela primeira vez normalmente possui tempo limitado e restrições logísticas. A opção por reservas privadas de safári e ênfase nas atrações turísticas mais conhecidas é plenamente justificável.

Mesmo assim, é praticamente impossível passar por Cape Town e não entrar no território do parque nacional, mesmo que muitos não percebam que estão dentro dele. Grande parte da Península do Cabo está protegida pelo Table Mountain National Park, um caso particular em que área urbana e parque coexistem de forma integrada.

Na maioria dos parques, um portão de acesso controla a entrada dos visitantes e cobra uma taxa de entrada, conhecida como “conservation fee”. Os valores variam de acordo com o parque e a procedência do visitante (África do Sul, África Austral ou estrangeiros), cobrindo um período de 24 horas a partir do horário de entrada.

A melhor forma de visitar os parques é de forma independente, com automóvel alugado. As regras específicas de cada parque devem ser sempre observadas, mas com o automóvel, ganha-se em liberdade e autonomia. A interação com a natureza segue as preferências de cada viajante. Pode-se circular com o veículo pelo parque, participar das atividades disponíveis ou simplesmente contemplar a natureza.

Alguns parques, especialmente os mais populares (como o Kruger), também recebem muitos visitantes em grupos organizados. Podem ser visitas de apenas um dia ou períodos mais longos, com pernoite dentro do parque. Em que se pese a perda de autonomia, tais opções atendem ao perfil do viajante que não deseja dirigir ou que prefere fazer parte de um grupo.

A maioria dos parques possui estrutura de hospedagem e alimentação, atendendo públicos diferentes. Aos entusiastas do camping, há locais numerados determinados ao pernoite, que contam com banheiros e cozinhas comuns, imaculadamente limpos e bem equipados. Muitos viajam com suas barracas em veículo normal de passeio, mas os 4×4 com todo equipamento de camping acoplado ao veículo também são populares e necessários em alguns parques. Há locadoras especializadas nos dois casos.

Para quem prefere maior conforto, os bangalôs e afins oferecidos nos parques, com banheiros privativos e facilidades como cozinha completa e churrasqueira, possibilitam uma experiência autêntica de natureza, sem ter que investir tanto como numa reserva privada. A hospedagem é funcional, mas funciona perfeitamente para quem abre mão do luxo e sofisticação das reservas privadas.

Para as refeições, os parques oferecem restaurantes, lanchonetes e mini-supermercados, o que permite a cada visitante escolher de que forma equacionar a alimentação durante a sua estadia. Alguns parques ou acampamentos mais remotos não oferecem estrutura de alimentação, e nestes é necessário se programar com antecedência.

Parques nacionais da África do Sul: a classificação da ACT

Entendidos os pontos básicos a respeito dos parques, vamos agora agrupá-los, segundo a nossa classificação turística e a lógica do visitante brasileiro. A descrição completa e pormenorizada dos parques está no site do SANParks, o nosso intuito é apenas contextualizar cada um deles. Também existem classificações relacionadas ao ecossistema e outros fatores, diferentes dos objetivos da nossa classificação abaixo.

Parques principais (alta ocupação)

São os parques mundialmente conhecidos, grandes atrações da África do Sul e com forte demanda durante todo o ano. Mesmo quando localizados em região remota, o acesso é facilitado por via aérea. Devem ser evitados nos períodos de pico e férias locais.

  1. Table Mountain: protege, de forma descontínua ao longo da península, as icônicas atrações da região de Cape Town, como a Table Mountain, Devil’s Peak, Signal Hill, Lion’s Head, Cape Point, Boulders e outras. Na minha visão, o nome mais apropriado seria Cape Peninsula National Park, como já foi no passado.
  2. Kruger: um dos melhores e maiores parques de safári do planeta, com enorme diversidade de espécies e muitas possibilidades de visitação, o que democratiza o acesso. Ainda pouco visitado por brasileiros (há certa confusão com as reservas privadas), demanda tempo e planejamento adequados para evitar frustração.
  3. Garden Route: formado pela reunião de três incríveis parques na faixa litorânea conhecida como Garden Route – Tsitsikamma, Knysna e Wilderness. Muito procurados por quem viaja na região, destaque especial para a famosa Otter Trail, uma das mais espetaculares trilhas do planeta.
  4. Addo Elephant: terceiro maior parque do país, mesmo não tendo a diversidade do Kruger ou a imensidão do Kalahari, é um dos mais populares destinos de safári na África do Sul e integra-se perfeitamente a roteiros na Garden Route. Único parque costeiro com safári tradicional de qualidade.
  5. Kgalagadi: mais conhecido na antiga grafia Kalahari, é o menos visitado dos peso-pesados devido à sua localização e clima pouco amigáveis. Mas recompensa os visitantes mais aventureiros com trilhas 4×4, safári de qualidade em ecossistema semi-árido e espécies inusitadas.

Parques secundários (fácil acesso)

Não possuem a mesma atração dos parques principais, o que não significa que devam ser menosprezados. O acesso é relativamente descomplicado, partindo de alguma cidade principal ou centro turístico. Perfeitos para uma segunda visita ao país ou para quem possui maior tempo disponível no roteiro.

  1. Agulhas: o verdadeiro ponto de encontro entre os oceanos Atlântico e Índico, extremo sul do continente africano e o início da nossa travessia Agulhas – Alexandria. Ganhou um belo monumento (mapa da África) em 2019.
  2. West Coast: a menos de duas horas de Cape Town, protege a bela lagoa de Langebaan, perfeita para kitesurf e caiaque, e uma faixa do litoral repleta de baleias e fynbos, com trilhas para hikers e mountain bikers.
  3. Bontebok: o antílope bontebok, raríssimo e só encontrado nesta região (a 240 km de Cape Town) é a atração do menor parque do sistema, que pode ser combinado com Agulhas e outras atrações do Overberg.
  4. Augrabies Falls: a barulhenta queda d’água na garganta do rio Orange compõe um cenário singular; o parque conta com diversos pontos cênicos, vida selvagem, pássaros e trilhas: 4×4, a pé e mountain bike.

Parques secundários (acesso distante)

Parques populares entre os sul-africanos e visitantes regulares europeus. São característicos dos ecossistemas que representam e localizam-se a pelo menos 500 km dos centros turísticos mais próximos. Podem ser combinados a atrações próximas e funcionam bem com os amantes das “road trips”.

  1. Tankwa Karoo: famoso pela proximidade do local onde ocorre anualmente o festival AfrikaBurn, pelas trilhas 4×4 e pelo céu repleto de estrelas.
  2. Karoo: tradicional parque com vida selvagem característica do bioma Nama-Karoo, paisagens singulares e trilhas ecológicas 4×4, na junção das estradas nacionais N1 e N12.
  3. Camdeboo: também na região do Karoo, animais selvagens, trilhas 4×4 e esportes aquáticos; a atração principal são as colunas rochosas do Valley of Desolation, pitorescas formações vulcânicas e erosivas.
  4. Mountain Zebra: safari drives, walk safaris, cheetah tracking e trilhas diversas no parque próximo à histórica e turística cidade de Cradock. Combina bem com o Addo e Camdeboo.
  5. Golden Gate Highlands: na fronteira com o Reino do Lesotho, oferece safáris, atividades aquáticas, passeios a cavalo e vila cultural basotho. Combina bem com o Royal Natal (Drakensberg).

Parques remotos (baixa ocupação)

Estão localizados fora do eixo dos grandes centros turísticos e o acesso não é conveniente para quem possui restrição no tempo de viagem. Normalmente atendem interesses específicos ou ao apelo de estar em uma região remota, com poucos turistas e maior isolamento da civilização.

  1. Namaqua: muito popular em agosto e setembro (começo da primavera), quando surgem as flores selvagens, colorindo de forma singular a paisagem do parque costeiro.
  2. |Ai-|Ais/Richtersveld: um dos mais remotos parques, na fronteira com a Namíbia; indicado para trilhas em cenário montanhoso e inóspito, próximo ao Fish River Canyon.
  3. Mokala: o mais novo parque do sistema, próximo a Kimberley, protege espécies ameaçadas de extinção e oferece pintura rupestre, atividades de aventura, braai (churrasco) tradicional e pesca.
  4. Marakele: as montanhas Waterberg marcam uma zona de transição devido ao encontro de dois ecossistemas (seco e úmido), com abundante vida selvagem.
  5. Mapungubwe: situado na tríplice fronteira entre África do Sul, Botswana e Zimbabwe (a 200 km de Pafuri, norte do Kruger), oferece passeios culturais, museu e game drives.

Considerações finais

Engana-se profundamente quem subestima os parques nacionais da África do Sul. Não só estão entre os melhores do mundo no que se refere às atrações de natureza e atividades, mas também oferecem um modelo democrático e adequado de exploração turística, privilegiando valores conservacionistas e sustentabilidade. Além do lazer saudável e inclusivo, o caráter educacional dos parques é relevante.

Erro ainda mais grave é visitá-los sem a devida programação de tempo, sazonalidade, logística, distâncias e sem calibrar as expectativas. Nenhum parque, nem mesmo o Kruger, é indicado para quem deseja uma experiência instantânea e turística de safári. Qualquer comparação com outros parques (no leste da África, por exemplo) é inapropriada e comparações com reservas privadas são descabidas.

A maior parte dos brasileiros perde uma faceta preciosa da África do Sul ao ignorar os parques. E não são apenas os nacionais: cada província também gerencia os parques de sua jurisdição regional, muitos deles igualmente espetaculares. Por um lado, o tempo escasso é justificativa plausível, mas a falta de interesse e conhecimento dos agentes de viagem brasileiros contribui bastante para que muitos prefiram organizar a viagem diretamente.

Ao contrário da maioria dos parques em outros países da África, é perfeitamente possível programar a viagem e visitar os parques sul-africanos por conta própria. Mas dedicação, tempo, estudo e experiência no assunto são imprescindíveis para um resultado satisfatório. Na impossibilidade de uma programação estruturada, é mais sensato ficar restrito aos destinos e atrações comerciais, ou procurar orientação profissional competente.

Muitos dos nossos roteiros regulares consideram as restrições de tempo e outras prioridades, mas incluem experiências pontuais nos parques, de forma integrada com as demais atrações. Para quem possui mais tempo e deseja conhecer os parques em profundidade, temos roteiros personalizados que guardam segredos reservados a poucos privilegiados. A verdadeira essência da África do Sul.

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Adriano Lucchesi é administrador de empresas (FGV), MBA em economia do turismo (FEA-USP), fundador da Atlantic Connection Travel (1996) e da ACT Afrika Tours & Safaris (2009), operadoras de viagem especializadas em África e Ilhas do Índico, com sedes em São Paulo, Cape Town e Odessa.

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