O Último Voo da SAA – saudosa South African Airways

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A história do último voo da SAA para São Paulo, um inesquecível e singular voo de repatriação da África do Sul para o Brasil, em meio à pandemia do coronavírus.

Como faço há 25 anos, pousei em Cape Town a bordo de uma aeronave da SAA. Um pouco atrasado, é verdade, naquele já longínquo dezembro de 2019. Minha saída de São Paulo, no feriado de 15 de novembro, fora retardada devido a uma greve dos pilotos da SAA. No dia do embarque, lá estava nosso querido Kadu, supervisor e funcionário símbolo da SAA. Entre São Paulo e Cape Town, estive com minha esposa na Austrália e em Seychelles, cumprindo uma agenda de trabalho. Jamais poderia imaginar, naquele momento, que a minha volta ao Brasil seria no último voo da SAA.

A chegada do outono, WTM e Indaba (feiras de turismo que ocorrem neste período, na África do Sul), sinaliza a hora de voltar ao Brasil, e como sempre, programo o voo para o feriado do trabalho, começo de maio. Curiosamente, em 2020, chegou o outono, mas não houve WTM. Como no dia dos atentados em NY, cada um terá as suas lembranças do começo da pandemia.

As minhas remetem ao Tsitsikamma National Park e a Robberg Peninsula, reservas espetaculares localizadas na Garden Route. Entre uma trilha e um mergulho na cachoeira ou no mar, começávamos a perceber que a situação no Brasil começava a se agravar, seguindo a tendência de Ásia e Europa. Na África do Sul, mais ainda na Garden Route, tudo era paz e serenidade.

Tsitsikamma National Park, Garden Route

Mas as crises chegam sem rodeios, e quando voltamos a Cape Town (19/3) a maioria dos restaurantes e comércio já estavam fechados. Clima de tranquilidade, misturado à incerteza quanto às medidas a serem adotadas. O isolamento voluntário já estava sendo praticado por muitos, mas ainda havia bom movimento nas praias. Esportistas e turistas presentes na orla de Sea Point, como de costume.

Nesta altura, só saíamos do apartamento para ir ao supermercado, uma vez por semana, e à praia de Clifton, que praticamente vazia, era um verdadeiro elixir para a sanidade mental. Mas a cada mergulho nas águas gélidas do Atlântico, sabíamos que a despedida estava próxima. No dia 24/3 as praias e parques foram oficialmente fechados e neste dia o presidente Cyril Ramaphosa anunciou o lockdown a partir de 27/3. Lockdown de verdade, com policiamento extensivo e saídas permitidas apenas para compras ou serviços essenciais.

Durante este período, segunda quinzena de março, a LATAM começou a perceber uma diminuição da ocupação em todas as suas rotas, e na de Johannesburg não foi diferente. Com a queda da demanda, alguns voos foram cancelados antes de 27/3, agrupando os passageiros em menos voos. A prática é compreensível, desde que os passageiros reacomodados tenham a devida assistência. Não só ficaram desassistidos, como ninguém esperava o lockdown (e consequente fechamento dos aeroportos e fronteiras) a partir de 27/3.

Nossos passageiros foram devidamente reacomodados e embarcados pela SAA antes do lockdown, mas muitos passageiros LATAM que deveriam ter voado antes do lockdown ficaram retidos. E como eu, muitos que tinham reserva em voos futuros ficaram igualmente sem opções de retorno ao Brasil. Mas o Itamaraty, a Embaixada em Pretoria e o Consulado em Cape Town agiram de forma impressionante.

O Brasil foi o primeiro país a conseguir autorização das autoridades sul-africanas para realizar um voo de repatriação durante o lockdown. Este voo ocorreu no dia 1/4, operado e custeado pela LATAM com o objetivo de trazer de volta os seus passageiros. Muitos ficaram sem assistência por mais de uma semana, e tinham voos confirmados antes do início do lockdown.

O segundo voo foi programado para o dia 6/4 e tinha como missão trazer os demais brasileiros retidos. O governo brasileiro assumiu os custos deste voo e contratou a South African Airways (SAA) para operá-lo. Curiosamente, em 20/3, a SAA fazia o último voo oficial regular da rota Johannesburg – São Paulo após mais de 50 anos de operações ininterruptas. Mas quis o destino que eu estivesse no último dos últimos.

Preenchi um cadastro da Embaixada, demonstrando interesse no voo. Mas informei que não estava em situação de emergência, que abriria mão do meu lugar em favor de alguém com maior necessidade, e que só poderia embarcar com minha esposa, ucraniana (com residência legal e documentação no Brasil). Não achei que seríamos incluídos no voo.

No dia 3/4 a Embaixada soltou a lista de passageiros e estávamos nela. Organizamos tudo com pouco tempo, apartamento, veículos e bagagem. Sempre difícil sair de Cape Town, mas desta vez não tínhamos escolha. A decisão correta era estar próximo da família em São Paulo e reduzir a imprevisibilidade.

Na chuvosa e cinza segunda-feira, 6/4, tínhamos que nos dirigir a um dos 4 pontos de encontro estabelecidos. Ônibus fretados nos levariam ao estádio para inspeção sanitária e ao aeroporto. Ninguém tinha autorização para seguir por conta própria ao estádio ou aeroporto, devido ao lockdown. Um dos pontos de encontro, as piscinas de Sea Point, fica exatamente na frente do nosso apartamento, o que facilitou bastante. Atravessamos a Beach Road e estávamos dentro do ônibus, com máscaras e luvas.

De Sea Point ao belo estádio em Green Point, que já foi sede de uma semifinal da Copa de 2010. Uma organizada inspeção sanitária checou sintomas e condições clínicas de todos os passageiros. A prefeitura de Cape Town gentilmente ofereceu um lanche a todos e os profissionais envolvidos foram extremamente calorosos e solícitos. Deixaram claro que as circunstâncias da partida eram lamentadas e que queriam todos de volta em um futuro breve.

Finalmente saímos rumo ao aeroporto, ruas e estradas completamente desertas. Na chegada ao Aeroporto Internacional de Cape Town, tudo fechado. Cerca de 15 funcionários do aeroporto e 10 da SAA cuidaram para que todos desembarcassem em segurança do ônibus, fizessem o check-in, passassem pelo detector de metais, imigração e estivessem confortavelmente aguardando na área de embarque internacional. Todas as lojas e restaurantes fechados, mas tudo funcionou perfeitamente.

Final de tarde, ainda estava claro quando o imponente Airbus A340 da SAA, proveniente de Johannesburg, pousou na pista que tem as montanhas das vinícolas como pano de fundo. Sempre achei as cores da SAA as mais belas de todas as empresas aéreas, mas nesse dia elas estavam ainda mais imponentes. Eternas.

Pela primeira vez na minha vida, estava decolando de Cape Town em um voo direto e sem escalas para São Paulo. Um velho sonho realizado em circunstâncias inimagináveis. Pela primeira vez, o voo SA 2224 sobrevoou o City Bowl, o Waterfront e o litoral do Atlântico, logo após o pôr do sol. Se tinha que existir um último voo da SAA para o Brasil, certamente ele foi à altura da história da companhia e da rota.

O voo foi excelente como de costume, e voar Cape Town – São Paulo direto realmente é um sonho. Fora a rapidez do voo e os trajes espaciais dos comissários, tudo transcorreu na mais perfeita ordem e normalidade.

Na chegada em Guarulhos, tudo absolutamente deserto, mas como não poderia ser diferente, lá estava o Kadu, desde 2004 na SAA, recepcionando os passageiros de máscara. Na sua imagem, naquele momento, terminava uma história que durou quase 25 anos e que se confundiu com a minha história profissional e pessoal. Muita sorte e nossa gratidão Kadu, a vc e a todos os funcionários da SAA.

O lockdown assim terminava, para dar lugar à quarentena.

Adriano Lucchesi é administrador de empresas (FGV), MBA em economia do turismo (FEA-USP), fundador da Atlantic Connection Travel (1996) e da ACT Afrika Tours & Safaris (2009), operadoras de viagem especializadas em África e Ilhas do Índico, com sedes em São Paulo, Cape Town e Odessa.

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