Cape to Cairo: a gênese da rota épica africana

Missionaries and steam train Congo 1900-1915
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A rota Cape to Cairo (da Cidade do Cabo, sul da África do Sul ao Cairo, norte do Egito) é uma das mais lendárias e românticas travessias do planeta Terra. Além de aguçar os sonhos e a imaginação de muitos viajantes e aventureiros desde o século XIX, a rota se confunde com a história, o desenvolvimento e a integração do continente africano. Na foto acima, missionários viajam no ramal congolês da ferrovia Cape to Cairo, jamais concluída, entre 1900 e 1915.

Para evitar imprecisões, mantemos termos originais em inglês quando apropriado. Boa leitura !

Cape to Cairo Railway: o sonho de Cecil Rhodes

Em 1874 surgiram os primeiros planos de construir uma ferrovia combinada com hidrovias fluviais, conectando a África do Congo ao Sudão. Se mesmo hoje em dia tal projeto seria ousado em termos de engenharia, utópico em termos políticos e inviável financeiramente, no final do século XIX era quase um devaneio.

O responsável por transformar o impossível em projeto pioneiro e de vanguarda foi Cecil Rhodes (1853-1902), magnata britânico que transformou-se em político (primeiro-ministro do Cape Colony em 1890), empreendedor e poderoso empresário do setor da mineração. Foi também o fundador da Rodésia (atuais Zâmbia e Zimbábue).

Personalidade controversa até os dias de hoje, devido à sua postura imperialista, Rhodes vislumbrava conectar as colônias britânicas da África desde o sul (Cape Town) até o norte (Cairo). Na sua próxima visita a Cape Town, não deixe de visitar o Rhodes Memorial, nas terras doadas por ele para a UCT (University of Cape Town).

Iniciativas semelhantes foram conduzidas por franceses (para conectar suas colônias do Senegal ao Djibouti) e portugueses (de Angola a Moçambique), em diferentes eixos no sentido leste-oeste. Mas a proposta de Rhodes era a única que tinha coerência geográfica e o poderio do Império Britânico para viabilizá-la.

As dificuldades de engenharia, as duas guerras mundiais, a grande depressão de 1930 e o início do processo de descolonização da África (com a consequente formação de novos países independentes) não permitiram que o sonho de Rhodes fosse completo. Mas diversos ramais ferroviários regionais foram construídos devido ao ímpeto do projeto.

Trans-African Highway 4: a estrada Pan-Africana

Embora sem o mesmo romantismo do projeto ferroviário, a ideia de uma estrada ligando o continente existe desde o começo do século XX. A primeira tentativa de atravessar a África em veículo automotor data de 1913, mas apenas em 1926 The Court Treatt Expedition conseguiu chegar ao Cairo, 16 meses após a partida de Cape Town.

Engana-se quem observa o mapa do sistema de rodovias Trans-Africanas como uma realidade. Embora o conceito seja de suma importância para o desenvolvimento da África, pouco existe além da mera conexão de estradas nacionais.

O sistema de rodovias Trans-Africanas é desenvolvido pela Comissão Econômica das Nações Unidas para a África (UNECA), pelo Banco Africano de Desenvolvimento (AfDB), União Africana (AU) e pelos governos nacionais. Muitos órgãos, pouca sinergia. Na prática, são os investimentos chineses em parceria com governos nacionais que trazem reais melhorias nas estradas. A grande questão é qual será o impacto, a longo prazo, da influência chinesa na África.

No trecho 4, alguns trechos são surpreendentemente bons, muitos são razoáveis e os ruins estão desaparecendo, devido aos investimentos chineses. Para tristeza dos aventureiros, o norte do Quênia e o sul da Etiópia (famoso trecho conhecido como Road to Hell) transformou-se em uma ótima estrada.

A rota Cape to Cairo permite muitas variações regionais, mas segue basicamente o caminho do trecho 4. Por cortar as regiões mais turísticas e desenvolvidas da África, o estado geral deste setor é infinitamente superior aos demais, a maioria ainda em estágio embrionário, inexistente ou com obstruções de caráter político.

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Gostou? Este post faz parte do projeto Agulhas – Alexandria, a travessia completa da África do Sul ao Egito, planejada e executada pela Atlantic Connection Travel. Conheça a história completa:
Próximo post: Cape to Cairo: os grandes heróis da travessia

Adriano Lucchesi é administrador de empresas (FGV), MBA em economia do turismo (FEA-USP), fundador da Atlantic Connection Travel (1996) e da ACT Afrika Tours & Safaris (2009), operadoras de viagem especializadas em África e Ilhas do Índico, com sedes em São Paulo, Cape Town e Odessa.

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