Agulhas – Alexandria, epílogo 2: O Intervalo

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O intervalo da travessia corresponde ao período compreendido entre a minha partida de Alexandria (01/07/2015) e o meu retorno a Addis Abeba (26/10/2015), portanto quase 4 meses. Foi parte da programação original e fundamental na engrenagem que possibilitou a realização de todo o projeto, por isso não poderia deixá-lo sem registro.

De Alexandria voei para a Catania, na Sicília, via Istambul. Segundo os italianos do norte, tudo que está abaixo de Roma é África: seguindo a lógica, permanecia na África, com satisfação. Da Catania fui para Milazzo e do porto local para Lipari, nas Ilhas Eólias (Isole Eolie), um dos meus refúgios prediletos. Recebi a ilustre visita da minha mãe, fomos para a Calabria e Puglia na sequência. De Bari, ela pegou o voo de volta ao Brasil e eu um ferry para atravessar o Adriático, chegando ao porto de Bar em Montenegro. Revi amigos na região de Kotor e Budva, na bela costa montenegrina, passei pela capital Podgorica antes de chegar em Tirana, na Albânia. Voei a Palermo e fiquei mais alguns dias em Vulcano, nas Eólias. Consegui recuperar o meu fôlego e o tempo de trabalho perdido desde a partida.

Sempre me perguntam por que não dediquei mais tempo à travessia, se afinal eu continuei viajando. A resposta é simples: eu nunca tiro férias integrais, estou sempre trabalhando de qualquer lugar do mundo. Tenho o privilégio de poder trabalhar remotamente e de acordo com a necessidade, sempre que viajo. Durante a travessia também foi assim, embora com muito menos tempo disponível e maior dificuldade para estar conectado.

A razão principal deste agradável período no verão europeu foi um plano essencial – que me trouxe uma enorme dor de cabeça. Durante a passagem por Addis, enquanto resolvia a burocracia para estacionar a Freelander, levei-a em uma mecânica especializada para uma pré-revisão preventiva: um levantamento de todas as peças de reposição e reparos necessários para voltar a Cape Town sem maiores problemas. Sabia que no trajeto de retorno seria muito difícil encontrar qualquer peça, especialmente na Etiópia, e estava decidido a reduzir a probabilidade de atrasos.

A oficina mecânica em Addis Abeba providenciou uma longa lista de reparos e peças. Faria o serviço apenas na volta, mas com a lista em mãos, comprei as peças na Inglaterra para entrega na Catania, otimizando impostos e taxas. Para viabilizar toda a operação, fui obrigado a passar esse tempo na Itália e Montenegro…

Recebi a encomenda na véspera da partida, na Catania. Com muita dificuldade embalei todas as peças, incorporei na minha bagagem e voltei para Alexandria. Fiquei mais algumas noites naquela que se tornou minha cidade predileta no Egito e do Cairo embarquei para Cape Town, via Addis Abeba. Programei longas 8 horas entre os voos, o que me permitiria comfortavelmente deixar todas as peças dentro da Freelander, estacionada na Embaixada do Brasil – que fica a 5 minutos do Bole International Airport, em Addis. Tudo planejado nos mínimos detalhes.

Só não contava que as malas não chegariam no voo proveniente do Cairo, e tive que embarcar na conexão para Cape Town sem elas. Fiquei uma semana no inverno de Cape Town aguardando a chegada das malas, com aquele monte de peças passeando pela África. Felizmente elas chegaram intactas ao meu apartamento. Deixei-as em Cape Town aguardando o meu retorno, quando as levaria finalmente de volta para Addis. Uma confusão e tanto, e finalmente pude embarcar com a South African Airways para São Paulo, onde fiquei até o fim de outubro.

Voltando a Cape Town, dormi apenas uma noite em casa, organizei todas as peças e estava voando novamente para Addis. Na chegada, um evento marcante: os oficiais da alfândega etíope queriam me cobrar US$ 2.500 de imposto sobre as peças. Já havia consultado as regras de importação, no caso de utilização das peças em veículo próprio, há isenção total do tributo. O problema é que ninguém acreditava que eu tinha dirigido desde a África do Sul.

Conhecendo a lei, mantive a posição e a tensão foi aumentando ao longo de 3 horas de discussão. Quando a Embaixada do Brasil entrou em contato, informando que o veículo realmente era meu e estava estacionado a 5 minutos dali, finalmente fui liberado. Sem nenhuma cobrança e com um pedido de desculpas pela espera.

O período de intervalo chegava ao fim, estava de volta a Addis Abeba.

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Gostou? Este post faz parte do projeto Agulhas – Alexandria, a travessia completa da África do Sul ao Egito, planejada e executada pela Atlantic Connection Travel. Conheça a história completa:
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Adriano Lucchesi é administrador de empresas (FGV), MBA em economia do turismo (FEA-USP), fundador da Atlantic Connection Travel (1996) e da ACT Afrika Tours & Safaris (2009), operadoras de viagem especializadas em África e Ilhas do Índico, com sedes em São Paulo, Cape Town e Odessa.

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