Agulhas – Alexandria, parte 6: Etiópia

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Dia 38, km 9866 + 733, Gondar, Etiópia (23/06/2015)

O planejamento adequado do momento ideal para a partida foi fundamental. Percorrer a África na época das chuvas é impossível em muitas regiões, tal qual combinar a época ideal de Cape Town até o Cairo. As condições foram perfeitas de Cape Town até Moyale: dias ensolarados, não excessivamente quentes, noites agradáveis. Nas estradas, encontrei as mais variadas dificuldades e condições adversas, mas em momento algum dirigi na chuva. Ponto chave para cumprir as metas diárias com segurança e dentro do tempo. A partir da Etiópia, como já era sabido, as condições ideais dariam lugar a chuvas frequentes. Do Sudão em diante, temperaturas acima dos 40 graus. O nível de dificuldade e o cansaço estavam aumentando.

Costumo dizer que a Etiópia é a Índia da África. Não que existam muitas similaridades, mas algumas sensações e dificuldades são realmente comuns. A Etiópia é um país diferente. Possui idioma, alfabeto e cultura absolutamente singulares. Uma história rica, conturbada e milenar. Apesar da ocupação italiana de 1936 a 1941, jamais foi colonizada por europeus. A culinária é fantástica e as belas paisagens estão sempre em transformação. Cada região do país é diversa e as atrações se complementam. É relativamente seguro e com uma das maiores taxas de crescimento na África (2015), o que evidencia a franca recuperação de um dos países mais pobres do mundo até a virada do século.


Ao atravessar a confusa fronteira etíope em Moyale, a mais demorada até então, começou uma nova etapa da jornada. Por ser domingo, os poucos funcionários não queriam trabalhar. A permissão de importação do automóvel só ficaria pronta na segunda. Isso me segurou em Moyale o resto do domingo, dia sagrado de descanso. Parecia um outro planeta comparado à Moyale queniana. Cores, aromas, movimento. Um verdadeiro caldeirão cultural, com forte influência somali.

Na segunda bem cedo, com mais demora e muita persistência, consegui o documento de importação da Freelander, válido por um mês. Ao questionar sobre a prorrogação deste prazo, me mandaram resolver em Addis. Não perdi mais tempo e segui rumo a Shashemene, cidade sagrada para a religião rastafari. A Etiópia não adota a mão inglesa, como todos os demais até aqui. Daí em diante eu teria que dirigir do lado errado, o que dificulta bastante na hora de ultrapassar.

Na saída de Moyale, a estrada era novinha em folha. Achei que seria um passeio, mas uma hora depois cruzei com as máquinas da empreiteira, que marcavam o fim da nova rodovia. Daí em diante, tive um dia longo. Estradas de terra ruins, sinuosas, trechos em construção e desvios. A chuva castigava vilarejos perdidos nas montanhas, escondidos por neblina e fumaça de incenso. Pedestres e crianças por todo lado. Após o dia mais difícil desde a partida, anoiteceu e ainda estava longe de Shashemene. Decidi parar assim que possível, mas não encontrei nenhum lugar viável. Por volta das 9 da noite, já exausto, quase colidi com um grupo de hienas no meio da estrada. Foi a última vez que dirigi à noite. A regra de ouro para quem deseja atravessar a África: jamais dirigir à noite. Jah e os deuses rastafaris me ajudaram a chegar em segurança na sua terra sagrada.

O trecho até Addis Abeba foi mais tranquilo, embora com chuva, como todos os dias na Etiópia. Addis é uma cidade cansativa e fascinante ao mesmo tempo, culturalmente rica, diversa e assumiu um papel político importante no contexto dos órgãos multilaterais africanos. O trânsito de Addis é caótico e exige concentração total, paciência e sorte. Minha previsão de ficar pouco tempo em Addis falhou. A estadia na capital etíope começou muito bem: após meses de espera e incerteza, finalmente saiu o visto sudanês. Fui imediatamente na Embaixada do Sudão, e ao tê-lo em mãos, pela primeira vez senti a sensação que conseguiria chegar em Alexandria. Nos próximos dias, tive intoxicação alimentar, febre alta e muita tensão.

O plano era deixar a Freelander em Gondar, quase na fronteira com o Sudão. Ao solicitar às autoridades etíopes a prorrogação da permissão de importação do veículo, fui informado que não seria possível. Não poderia prorrogar sem estar presente no país. Após dias de peregrinação ao ministério dos transportes e de infernizar todo o departamento, consegui uma autorização excepcional para estacioná-lo na Embaixada Brasileira em Addis. Só faltava combinar com a embaixada. Grata surpresa, fui recebido com incrível cordialidade e simpatia por toda a equipe da embaixada, que me autorizou a guardar o veículo na residência oficial. Até hoje não consigo acreditar que tudo deu certo.

Nos últimos dias em Addis, melhorei da intoxicação e me preparei para a partida, agora de ônibus, para Gondar e de lá para o Sudão. Despeço-me temporariamente do meu grande companheiro de viagem, “The Hero”, que me conduziu com segurança por quase 10.000 km e agora vai descansar um pouco antes da volta para Cape Town, com todas as honras, na residência oficial da Embaixada Brasileira.

O ônibus terrível e sem banheiro levou 14 horas para chegar em Gondar. O motorista parava a cada 3 horas e todos desciam para fazer suas necessidades no meio da estrada. A simpática Gondar me recebeu com uma chuva torrencial, ruas alagadas, falta de luz. Fui direto para o hotel escrever estas linhas e descansar. Amanhã acordo novamente às 4 da manhã, para enfrentar mais uma maratona de deslocamentos, fronteira e calor. Com alguma sorte, após mais 18 horas de viagem, espero chegar em segurança em Cartum, no temido e misterioso Sudão. Minha intensa e chuvosa estadia na Etiópia chegava ao fim.

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Moyale é movimento. Tudo acontece ao mesmo tempo e com barulho.

Medhanialem Orthodox Church em Moyale.

Estação de ônibus, Moyale.

Pastor na estrada, distrito de Mega.

Camelos na região montanhosa de Yabelo.

Procissão no meio da estrada principal do sul da Etiópia, em Finchawa.

Crianças em Shashemene.

Carroça, distrito de Kuyera.

Situação geral das estradas no sul da Etiópia, próximo a Bulbula.

Buracos, depois lama e de repente tudo desaparece na névoa da montanha.

Povoado nas proximidades de Abosa, às margens do lago Ziway.

Trânsito na região central de Addis Abeba. Nenhum lugar na África foi mais difícil dirigir.

Monumento ao Lion of Judah, centro de Addis Abeba.

Lion of Judah (Leão de Judá) é um símbolo originalmente judaico, mas foi incorporado pela Etiópia e pelo rastafarianismo. Representa o Imperador Haile Selassie I, símbolo de poder, realeza, orgulho e soberania da África.

Agradecemos nesta etapa a South African Airways, Ethiopian Airlines e Tracks4Africa.

À equipe da Embaixada do Brasil na Etiópia, um agradecimento muito especial, em especial para a Embaixadora Isabel Cristina Heyvaert.

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Gostou? Este post faz parte do projeto Agulhas – Alexandria, a travessia completa da África do Sul ao Egito, planejada e executada pela Atlantic Connection Travel. Conheça a história completa:
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Adriano Lucchesi é administrador de empresas (FGV), MBA em economia do turismo (FEA-USP), fundador da Atlantic Connection Travel (1996) e da ACT Afrika Tours & Safaris (2009), operadoras de viagem especializadas em África e Ilhas do Índico, com sedes em São Paulo, Cape Town e Odessa.

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