A Escalada do Kilimanjaro: respeito e serenidade

Pico do Kilimanjaro
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Umas das atrações mais icônicas do continente: o ponto culminante da África, chamado de “Kilima-Njaro” pelos nativos (do swahili “Kilima”, montanha e do chagga “Njaro”, brancura). A origem do nome Kilimanjaro é misteriosa e controversa, com diferentes versões: “montanha da grandeza”, “montanha das caravanas” ou “montanha inescalável”. Absolutamente indiscutível é que a escalada do Kilimanjaro tornou-se uma das maiores aventuras da Terra.

Onde se localiza e o que é o Monte Kilimanjaro ?

O Monte Kilimanjaro localiza-se no norte da Tanzânia, próximo à fronteira com o Quênia. A Tanzânia subdivide-se em 31 regiões administrativas, e uma delas é a região do Kilimanjaro, cuja capital é Moshi. Toda a extensão do Monte Kilimanjaro está dentro do Kilimanjaro National Park, administrado pela TANAPA (Tanzania National Parks).

O Kilimanjaro não é apenas o ponto mais alto da África, mas também a montanha autônoma (que não é parte de uma cordilheira) mais alta do mundo. O cume, denominado Uhuru Peak, está a 5.895 metros acima do nível do mar.

A maioria das montanhas de grande altitude faz parte de cadeias, como a Cordilheira do Himalaia, onde se localiza o Monte Everest. As cordilheiras de altitude são formadas por um processo de movimentação das placas tectônicas. A crosta terrestre é composta por várias placas tectônicas, que se movem devido à atividade geológica. Quando as placas se empurram umas contra as outras, as bordas se dobram. Uma cordilheira é formada quando uma falha (rachadura) na crosta terrestre empurra blocos de rocha entre duas placas tectônicas.

Montanhas autônomas geralmente são resultado de atividade vulcânica. As montanhas vulcânicas são formadas quando a rocha derretida (magma) entra em erupção e se amontoa na superfície. O Kilimanjaro foi formado a partir da atividade vulcânica e já teve três cones vulcânicos: Kibo, Mawenzi e Shira.

Kibo (5.895m) é o cone mais alto e central. É o cume do Kilimanjaro e foi formado há 460.000 anos.

Mawenzi (5.149m) é um pico escarpado, terceiro ponto mais alto da África, depois do Kibo e Monte Quênia (3.825m).

Shira (3.962m) já foi um pico há milhares de anos. Estima-se que tivesse cerca de 5.000 metros de altura antes de colapsar, criando o Planalto de Shira no lado oeste da montanha.

O Monte Kilimanjaro é um estratovulcão: um vulcão gigante feito de cinzas, lava e rocha. Shira e Mawenzi são vulcões extintos, o que significa que não há atividade ou suprimento de lava abaixo dos cones. Kibo é um vulcão adormecido: não entrou em erupção nos últimos 10.000 anos, mas tecnicamente ainda pode entrar em erupção novamente.

A última grande erupção ocorreu há 360.000 anos, a atividade mais recente há 200.000 anos. O poço de cinzas fica a duas horas do acampamento mais alto (Crater Camp), com o característico aroma de enxofre da lava do vulcão.

Quem foi o pioneiro da escalada do Kilimanjaro?

O Monte Kilimanjaro foi escalado pela primeira vez em 1889 pelo geólogo alemão Hans Meyer, acompanhado do alpinista austríaco Ludwig Purtscheller e do guia local Yohani Kinyala Lauwo.

Na primeira tentativa, em 1887, Meyer conseguiu chegar à base do Kibo, mas encontrou neve espessa e paredes de gelo. Não tinha equipamento adequado e teve que retornar antes de atingir o cume.

A segunda tentativa, um ano depois, também fracassou. Meyer foi capturado durante a escalada e mantido como prisioneiro, no episódio conhecido como a Revolta de Abushiri: a população árabe e swahili se rebelou contra os comerciantes alemães. Ele só foi libertado depois do pagamento de um resgate.

Meyer finalmente conseguiu em 1889. Sua equipe com um guia, dois líderes tribais, nove carregadores e um cozinheiro alcançou o cume pela borda sul da cratera. A rota Marangu é semelhante ao caminho pioneiro de Meyer.

7 boas razões para sonhar com a escalada do Kilimanjaro

  1. Atividade física e mental saudável
  2. Experiência de trekking e natureza singular
  3. Múltiplas oportunidades fotográficas
  4. Possibilidade de novas amizades e auto-conhecimento
  5. Sensação de realização e conquista
  6. Chegar bem próximo da neve e das estrelas
  7. Oportunidade para fazer um safári e visitar Zanzibar

As neves do Kilimanjaro estão mesmo desaparecendo ?

A redução da neve no topo do Kilimanjaro é um símbolo da mudança climática no planeta. Sua cobertura encolheu 82% desde 1912 e cientistas estimam que as geleiras podem desaparecer completamente em 2033. Entretanto, estudos científicos apontam que a causa principal seja o desmatamento, e não apenas o aquecimento global.

Quase 5 milhões de árvores nativas foram plantadas ao redor da base da montanha em 2008, para desacelerar o derretimento. Como as causas são múltiplas e interligadas, as medidas localizadas não parecem surtir efeito. Por via das dúvidas, se escalar o Kilimanjaro com neve é o seu objetivo, convém não esperar muito.

7 boas razões para desistir da escalada do Kilimanjaro

  1. Não são férias no resort.
  2. O Kilimanjaro pode ser perigoso.
  3. O Kilimanjaro pode ser difícil.
  4. A escalada não é uma atividade de baixo custo.
  5. A possibilidade de não chegar ao cume é real.
  6. A cada ano há mais pessoas escalando.
  7. Não há chuveiro nem banheiro na montanha.

Qual a melhor época para a escalada do Kilimanjaro ?

As melhores épocas para escalar o Kilimanjaro tendem a ser os meses mais quentes e secos – janeiro, fevereiro e setembro. Junho, julho, agosto e outubro também são meses bons. No entanto, as temperaturas e o clima são imprevisíveis e podem mudar drasticamente com base na hora do dia e na altitude. É melhor evitar a longa estação chuvosa, do final de março ao início de junho, e a curta estação chuvosa, de novembro ao início de dezembro.

As temperaturas variam drasticamente nas diferentes altitudes e zonas climáticas, mas a variação ao longo dos meses do ano é pequena. O que realmente impacta na escalada são as chuvas, deixando o terreno escorregadio.

A precipitação de neve no topo é mais um fator analisado na escolha do período da escalada. Dificulta bastante a locomoção na parte mais inóspita da montanha, mas também permite boas oportunidades fotográficas.

Quais as rotas possíveis para a escalada do Kilimanjaro ?

Muitos operadores do Kilimanjaro classificam as rotas de acordo com o grau de dificuldade, duração da escalada, cenário e tráfego, entre outros critérios. Embora a escolha da rota seja uma decisão importante e diretamente relacionada ao sucesso da escalada, não existe uma fórmula pronta. A decisão deve levar em conta as características e objetivos de cada indivíduo, bem como a sazonalidade e o contexto de cada escalada.

Dezenas de operadoras locais na Tanzânia são especialistas no Kilimanjaro. Muitas são sérias e consolidadas, outras aparecem e desaparecem. Operadoras internacionais, como a ACT, utilizam obrigatoriamente uma empresa local para a escalada. Desta forma, garante-se a manutenção dos empregos para os guias e carregadores credenciados da região.

Contar com uma operadora especializada em África garante que a sua escalada estará nas mãos de uma empresa local idônea, parceira da ACT há décadas e que respeita os princípios do turismo sustentável. Todas as decisões e orientações importantes, como a escolha da rota, são de nossa responsabilidade. Em conjunto com cada cliente, adequamos as características e necessidades pessoais às particularidades da escalada do Kilimanjaro.

Rota Marangu

Conhecida como a rota “Coca-Cola”, a rota Marangu é uma trilha clássica no Kilimanjaro. É a rota mais antiga e consolidada. Muitos preferem Marangu por ser o caminho mais fácil, com inclinação gradual. É a única rota que oferece cabanas para pernoite, em acomodações de estilo dormitório.

Marangu tem a menor variedade paisagística de todas as rotas: a subida e a descida são feitas no mesmo percurso, por isso o mais movimentado. Mesmo sendo uma opção durante a estação das chuvas (as acomodações em cabanas protegem do solo úmido), em geral Marangu é uma escolha ruim.

Rota Machame

Machame, a rota do “Whisky”, é a rota mais popular. Em comparação com Marangu, os dias em Machame são mais longos e as caminhadas são mais íngremes. É considerada uma rota longa e adequada para perfis mais aventureiros, com alguma experiência em caminhadas.

A rota começa no sul e segue para o leste, passando pelo campo de gelo do Kilimanjaro antes de chegar ao topo. A rota Machame é paisagisticamente bela e variada. No entanto, devido ao grande fluxo, perde boa parte de seu esplendor. Não é a nossa recomendação usual.

Rota Lemosho

A rota Lemosho é uma das rotas mais recentes no Kilimanjaro. A rota começa no oeste e, em vez de cruzar o Shira Plateau (como Machame), atravessa de Shira Ridge até o Shira Camp. Há menos tráfego até que se junta à rota Machame, seguindo o mesmo caminho ao topo.

Lemosho é considerada uma das rotas mais bonitas, com vistas panorâmicas de vários lados da montanha. Oferece um desejado equilíbrio de baixo tráfego, visual e alta taxa de sucesso no cume. Portanto, Lemosho é uma rota fortemente recomendada.

Rota Shira

A rota Shira é quase idêntica à rota Lemosho: Shira é a rota original e Lemosho uma variação aprimorada. Shira possui um ponto de partida com altitude relativamente elevada, acessado rapidamente por veículo.

Shira também é uma rota variada e bonita, mas Lemosho é mais recomendada pois evita os sintomas relacionados à diferença abrupta de altitude, logo no primeiro dia da escalada.

Rota do Circuito Norte

A rota do Circuito Norte segue a trilha Lemosho no início, aproximando-se do Kilimanjaro pelo oeste. No entanto, em vez de seguir a travessia do sul como todas as outras rotas de aproximação do oeste, o Circuito Norte atravessa a montanha pelas encostas do norte, raramente visitadas.

A mais nova rota demanda nove dias na montanha: também é a mais longa em tempo e distância percorrida. Com uma alta taxa de sucesso, paisagens variadas incríveis e um número baixo de visitantes, a rota do Circuito Norte é certamente uma das melhores opções do Kilimanjaro.

Rota Rongai

A rota Rongai é a única que se aproxima do Kilimanjaro pelo norte, perto da fronteira com o Quênia. Tem pouco tráfego e é a rota preferida para quem deseja uma caminhada mais remota ou para quem faz a escalada durante a época das chuvas (o lado norte recebe menos precipitação).

O cenário não é tão variado quanto nas rotas do oeste, mas Rongai passa por verdadeiras áreas selvagens, antes de entrar na rota de Marangu, no acampamento Kibo. A descida também é por Marangu. Todas as demais rotas, exceto Rongai e Marangu, descem por Mweka.

Rota Umbwe

A rota Umbwe é uma rota vertical, íngreme e direta. É considerada a mais difícil e desafiadora para subir o Kilimanjaro. Como permite uma subida mais rápida, Umbwe também reduz e acelera os estágios necessários para a aclimatação em altitude. O tráfego nesta rota é muito baixo.

Tem a fama de ser uma rota arriscada, que diminui as chances de sucesso e só deve ser desafiada por aqueles muito bem preparados e confiantes na capacidade de aclimatação. Não é recomendada a grupos heterogêneos, mas pela paz e isolamento, é a minha rota predileta.

Qual a preparação necessária para a escalada do Kilimanjaro ?

Ao contrário do que muitos pensam, não é necessário ser um atleta para escalar o Kilimanjaro. Da mesma forma que ser um atleta não é garantia de chegar ao topo. O que deve estar claro é que uma preparação adequada aumenta as chances de sucesso e a segurança da escalada.

O primeiro passo é fazer uma consulta ao seu médico, para que ele possa avaliar as suas condições físicas, respiratórias e a necessidade de eventuais exames complementares. Lembre-se que subir uma montanha na altitude é bem diferente de correr uma maratona ou uma prova de triathlon.

A preparação sempre pode ser aprofundada com acompanhamento profissional especializado, mas a orientação básica abaixo é baseada na experiência da minha escalada (em 2011, aos 39 anos, 4 operações no joelho, esportista regular de atividades de baixo impacto, praticante de trekking).

Destaco 5 pontos principais para conscientização e planejamento, que determinam não apenas o sucesso da escalada do Kilimanjaro, mas também a paz de espírito necessária para aproveitar a experiência em sua plenitude. São eles:

1. Adequação do seu preparo físico

Possivelmente o mais óbvio dos itens de preparação, um bom preparo físico é condição básica para escalar uma montanha de quase 6.000 metros de altura. Na prática, deve-se estar apto física e mentalmente a caminhar de 6 a 8 horas por dia, ao longo de uma semana, em aclives e declives.

Como chegar seu ao ponto ideal varia muito para cada indivíduo. Não acredito em longos programas de treinos extenuantes. O ideal é mesclar treinos aeróbicos (corrida, natação, ciclismo, atividades na academia – o que você gosta e pode fazer) com caminhadas, algumas mais longas.

Regularidade vale mais que intensidade, alimentação saudável é fundamental e fazer trilhas, claro, ajuda bastante. Programar uma viagem preparatória com trilhas em dias seguidos é uma ótima ideia. Quando não for possível, suba escadas e faça agachamentos.

2. Conhecimento dos riscos da altitude

Sem dúvida, o ponto mais crítico para o sucesso e a segurança na escalada. Cerca de 50% dos postulantes ao topo do Kilimanjaro fracassam por conta da hipobaropatia, conhecida como doença da altitude ou mal da montanha. Causado pela falta de oxigênio acima dos 2.400 metros, pode evoluir para um edema pulmonar ou cerebral, ambos potencialmente fatais, e muitos outros distúrbios perigosos.

A forma mais segura de prevenir a hipobaropatia, que não está relacionada ao preparo físico (e sim a predisposições orgânicas e hereditárias) é subir a montanha lentamente, dando tempo para o organismo se adaptar à altitude. Por isso, não adianta querer subir o Kilimanjaro rapidamente. Além de perigoso, é a fórmula do fracasso. Quando os sintomas são detectados de forma aguda, a única solução é descer a montanha.

Na maior parte dos casos, ao retornar para a base os sintomas desaparecem, mas todos os anos, mais de 1.000 remoções de emergência ocorrem no Kilimanjaro devido à hipobaropatia. Cerca de 1% destes casos são fatais na própria montanha e estima-se que mais 2% sejam fatais após o atendimento de emergência.

Comprimidos de Diamox (nome genérico acetazolamida) ajudam a previnir os efeitos da altitude, mas podem ter contraindicações. Indivíduos com predisposição para a doença de altitude devem evitar subir acima dos 2.000 metros, bem como com antecedentes de enfarte agudo do miocárdio, angina instável, doença pulmonar obstrutiva crônica com enfisema, epilepsia não controlada e doenças tromboembólicas, entre outros.

3. Compreensão das zonas climáticas

Da base ao topo do Kilimanjaro são percorridas cinco zonas ecológicas e climáticas distintas:

  1. Zona Cultivada (bushland): dos 800 aos 1.800 metros (média de 25°C)
  2. Zona da floresta tropical: dos 1.800 aos 2.800 metros (média de 20°C)
  3. Zona de pântano (moorland): dos 2.800 aos 4.000 metros (média de 10°C)
  4. Zona do deserto alpino: dos 4.000 aos 5.000 metros (média de 0°C)
  5. Zona Ártica: acima dos 5.000 metros (abaixo de -10°C)

As condições meteorológicas perto da base da montanha tendem a ser tropicais a semi-temperadas e relativamente estáveis ​​durante todo o ano. As planícies baixas são quentes e secas. À medida que nos afastamos da savana em direção à floresta tropical, as condições tornam-se cada vez mais quentes e úmidas.

Cada zona fica mais fria e seca conforme a elevação aumenta. A vida vegetal e animal desaparece com o aumento da altitude nas zonas de charneca e deserto alpino. O cume fica na zona ártica, caracterizada por gelo e rocha. Nesta altitude, categorizada como “extrema”, não pode haver habitação humana permanente, pois o corpo está em um estado de deterioração permanente (exposições curtas são aceitáveis e seguras).

4. Escolha adequada do equipamento

Não há necessidade de exageros, mas ter o equipamento adequado faz toda a diferença nas temperaturas extremas ou na exposição a mosquitos, sol, chuva, lama, neve e superfícies escorregadias.

O equipamento para a montanha deve ser colocado em sua mochila principal, sempre na responsabilidade dos carregadores, que levarão a mochila de um acampamento para outro. O limite de peso desta mochila é de 15 kg.

Durante a dia, só é necessário levar consigo itens básicos e de uso pessoal. Uma pequena mochila (daypack) é suficiente, levando capa de chuva, roupa reserva, água, lanche, luvas, boné, óculos escuros, repelente e protetor solar.

Nestas duas mochilas ficam todas as roupas e equipamentos pessoais, cuja lista completa é fornecida antes da viagem. O equipamento comunitário (barracas, alimentos, cozinha etc.) é fornecido pela operadora local.

5. Seguro com cobertura abrangente

Em situações imprevistas, mesmo de pequena gravidade, ter um seguro adequado é essencial. Todos os nossos produtos de viagem possuem seguro incluso, mas no caso da escalada do Kilimanjaro, oferecemos seguros com coberturas adicionais, específicos para a prática de montanhismo.

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Adriano Lucchesi é administrador de empresas (FGV), MBA em economia do turismo (FEA-USP), fundador da Atlantic Connection Travel (1996) e da ACT Afrika Tours & Safaris (2009), operadoras de viagem especializadas em África e Ilhas do Índico, com sedes em São Paulo, Cape Town e Odessa.

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