Nelson Mandela: o herói de todas as raças

Nelson Mandela
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Nelson Rolihlahla Mandela nasceu em Mvezo, um vilarejo na província de Eastern Cape (Cabo Oriental), em 18 de julho de 1918. Nos próximos 95 anos, testemunharia a ascenção do Partido Nacional (NP) e se tornaria a peça chave para derrubar a brutal ordem social e política da África do Sul. Durante uma vida de resistência, cárcere e liderança, Nelson Mandela conduziu a África do Sul ao fim do regime de apartheid, a uma nova era de reconciliação e democracia.

Madiba faleceu em Johannesburg, em 5 de dezembro de 2013. Advogado, revolucionário e presidente da África do Sul de 1994 a 1999, foi o maior líder da resistência ao governo do apartheid, o infame regime que segregou os negros no país de 1948 a 1994. Foi condenado à prisão perpétua em 1964 e libertado em 1990. Por sua luta e ideais, ganhou o Prêmio Nobel da Paz em 1993.

Todos reconhecem o ícone Nelson Mandela, ídolo mundial e legítimo patriarca da África do Sul democrática e multiracial. Mas ter sido o maior de todos os heróis da libertação da África justifica santificar a sua imagem e ignorar uma parte importante da sua biografia ?

O nascimento de um líder e as raízes do apartheid

Rolihlahla Dalibhunga Mandela nasceu filho de um chefe do povo Thembu, subgrupo do povo Xhosa, o segundo maior grupo étnico da África do Sul. Ao desafiar um magistrado britânico, o pai de Mandela foi destituído de sua liderança, título e terras. Faleceu em 1927, quando Mandela tinha apenas 9 anos.

Mandela veio ao mundo na União da África do Sul, um domínio do Império Britânico. A população negra da região sul do continente, das mais diversas etnias, já era dominada por uma minoria branca que controlava a terra, a riqueza e o governo – uma estrutura social discriminatória que mais tarde seria codificada no sistema legal do país: o apartheid.

Em seu primeiro dia na escola primária, recebe o nome “Nelson”, em homenagem ao Almirante Nelson. O costume de dar nomes ingleses a todas as crianças negras era prática comum da sociedade em que os brancos “eram incapazes ou não queriam pronunciar um nome africano”, escreveu ele em sua autobiografia, Long Walk to Freedom.

A raça de Mandela o relegava à casta mais baixa, mas seu sangue real e boas conexões lhe deram acesso à única universidade do país para negros: a Universidade de Fort Hare. Lá, ele se tornou um ativista e foi expulso por protestar contra a falta de poder do conselho estudantil. Voltou para casa, em sua pequena aldeia, para descobrir que sua família preparava um casamento arranjado. Em 1941 fugiu para Soweto, a maior cidade negra da África do Sul.

Segregação, resiliência e ativismo

Seu primeiro encontro com Walter Sisulu, em 1941, mudaria a sua vida. Sisulu diria, mais tarde: “Queríamos ser um movimento de massa, e então um dia um líder de massa entrou no meu escritório”. Sisulu consegue-lhe o emprego de assistente na banca de advogados judeus Witkin, Sidelsky & Eidelman, os únicos que desafiariam o sistema contratando um negro. Em 1943, Mandela torna-se estudante de direito em meio período, na Wits University.

Em 1944, Mandela, Sisulu, Tambo e outros criam a Liga Jovem do Congresso Nacional Africano (ANCYL). Lançam o manifesto “Um homem, um voto” – denunciando que 2 milhões de brancos dominam 8 milhões de negros, além de 87% do território. O Congresso Nacional Africano (ANC), fundado em 1912 por nacionalistas negros, era composto pela elite negra (profissionais liberais, religiosos e intelectuais), com bases cristãs e não revolucionárias.

Em 1948, a segregação que há muito era a realidade na África do Sul tornou-se lei, formalizada através do apartheid. Os sul-africanos negros tinham que carregar um passaporte para entrar nas áreas designadas para brancos. Só podiam viver em regiões exclusivas para os negros e eram proibidos de ter relacionamentos inter-raciais. Não possuiam qualquer direito como cidadão.

Em 1949 Mandela passa a integrar o Conselho Executivo do ANC. Ele e seus companheiros usam táticas não violentas, como greves e manifestações, para protestar contra o apartheid. Em 1951, Mandela é eleito presidente da ANCYL e, no ano seguinte, presidente do ANC na província de Transvaal, o que o coloca como vice-presidente nacional.

Em meados de 1952, Mandela ajudou a intensificar a luta como líder da Campanha de Desafio, que incentivou a população negra a violar as leis de segregação. Mais de 8.000 ativistas, incluindo Mandela, foram presos por ignorar toques de recolher, recusar a portar os cartões de identificação e outros crimes, como usar os banheiros públicos exclusivos dos brancos. No mesmo ano começou a praticar a advocacia, abrindo em sociedade com Oliver Tambo o primeiro escritório de advocacia para negros do país.

Depois de cumprir sua pena, Mandela continuou a liderar protestos contra o governo. Em 1956, junto com outros 155 ativistas, foi preso por traição. Após o Massacre de Sharpeville (1960), um protesto pacífico que foi reprimido pela polícia, causando 69 mortes e mais de 200 feridos, Mandela passou a acreditar que a resistência armada era a única maneira de acabar com o apartheid.

Em 1961 co-fundou o UmKhonto we Sizwe (MK), braço armado do ANC, responsável por ataques ao governo e a civis não colaboradores. O MK foi classificado como grupo terrorista e seus atos violentos viriam a ser a base de acusação no Julgamento de Rivonia. Em 1962, visitou diversos países africanos, recebeu treinamento militar e apoio para a causa, mas foi preso e condenado logo após o seu retorno, por deixar o país sem permissão e sem passaporte.

Enquanto na prisão, a polícia do regime descobriu documentos relacionados ao plano de guerrilha do MK. Junto com seus aliados, tornaram-se réus no Julgamento de Rivonia (1963-64). Já se sabia que seriam condenados e executados. Transformaram o julgamento em uma declaração, divulgando a luta antiapartheid e desafiando o sistema legal que oprimia os negros sul-africanos. Quando foi a vez de Mandela falar em defesa, ele fez um discurso de quatro horas.

“A falta de dignidade humana vivida pelos africanos é o resultado direto da política de supremacia branca”, disse ele. “É a luta do povo africano, inspirada no nosso próprio sofrimento e na nossa própria experiência. É uma luta pelo direito de viver”. Mandela estava comprometido com o ideal de uma sociedade livre, e “se necessário, é um ideal pelo qual estou preparado para morrer”.

Dos longos anos na prisão ao triunfo da democracia

Mandela não foi condenado à morte. Em 1964, foi condenado à prisão perpétua. Tinha permissão para apenas uma visita de 30 minutos com uma única pessoa e podia enviar e receber duas cartas – por ano. Confinado em condições austeras e submetido a trabalhos forçados, com o tempo conquistou o respeito de seus captores e companheiros de prisão. Teve a chance de deixar a prisão em troca de garantir que o ANC abdicasse do uso da violência, mas recusou.

Ao longo de seus 27 anos de prisão, Mandela se tornou o prisioneiro político mais conhecido do mundo. Suas palavras foram proibidas na África do Sul, mas ele já era o homem mais famoso do país. As notícias de sua prisão uniram ativistas em todo o mundo e inspiraram muitos líderes anticoloniais a marcharem rumo à independência.

Na década de 1960, alguns membros das Nações Unidas começaram a pedir sanções contra a África do Sul. Os apelos aumentaram nas décadas que se seguiram. A África do Sul tornou-se um pária internacional. Em 1990, em resposta à pressão internacional e ameaça de guerra civil, o novo presidente da África do Sul, Frederik Willem de Klerk, prometeu acabar com o apartheid e libertou Mandela da prisão.

Mandela com Winnie logo após a sua libertação, 1990 (foto: Greame Williams)

O apartheid não terminou imediatamente com a libertação de Mandela. Aos 71 anos, Mandela negociou com de Klerk uma nova constituição, que permitiria o governo da maioria. O apartheid foi revogado em 1991 e, em 1994, o ANC, agora um partido político, ganhou mais de 62% do voto popular em uma eleição democrática e pacífica. Mandela dividiu o Prêmio Nobel da Paz com de Klerk e tornou-se presidente de uma nova nação, a República da África do Sul.

Liderança pós-apartheid

Mandela foi presidente por cinco anos. Entre as suas realizações, a Comissão da Verdade e Reconciliação (TRC), idealizada para documentar violações aos direitos humanos e ajudar vítimas e infratores a aceitar o passado turbulento. Embora os resultados sejam contestados, a comissão ofereceu o início da justiça reparativa – um processo que se concentra no entendimento, e não na vingança – para uma nação que ainda sofre com séculos de cicatrizes.

Mandela com Desmond Tutu em Cape Town, 1994 (foto: Nancy Scheper-Hughes)

O legado de Mandela não é unanimidade: ele foi considerado por alguns analistas um presidente ineficaz, superficial no combate à violência e incapaz de impulsionar a economia durante o seu mandato. Após deixar o cargo em 1999, Mandela passou o resto de sua vida trabalhando em sua fundação, lutando para reduzir a pobreza e aumentar a conscientização sobre o HIV / AIDS.

Nelson Mandela é amado por todas as raças na África do Sul. Lutou por aqueles que estavam em desvantagem no sistema de segregação racial, tornando-se um símbolo dos direitos civis e da democracia. Evitou uma guerra civil e garantiu que ninguém mais seria discriminado por causa da cor da pele. Os direitos dos cidadãos são protegidos pela nova constituição sul-africana, com base nos direitos humanos.

Mandela usou o entusiasmo da nação pelos esportes para promover a reconciliação entre brancos e negros, encorajando os sul-africanos negros a apoiar a outrora odiada seleção de rugby. A África do Sul sediou e venceu a Copa do Mundo de Rugby de 1995. Foi também a primeira grande competição internacional em que a África do Sul teve permissão para participar.

Mandela com o capitão François Pienaar, após o triunfo dos Springboks sobre a Nova Zelândia por 15-12 na prorrogação, final da Copa do Mundo de Rugby em 24/06/1995 (foto Ross Setford)

Mandela atingiu a grandeza. Após 27 anos preso, não teve intenção de vingança e negociou o fim pacífico do apartheid. Como o primeiro presidente da África do Sul democrática, pregou e praticou a reconciliação.

Em 1961, rompeu com colegas do ANC que pregavam a não violência. Mais tarde, se declarou culpado em tribunal por atos de violência pública. Atrás das grades, juntamente com outros líderes, planejou atos violentos, incluindo o carro-bomba de Church Street em 1983, que matou 19 pessoas e feriu 217.

Mandela argumentou que o regime do apartheid não lhe deixou outra opção a não ser lutar contra a violência com violência. O emprego de tal recurso na guerra que travou em seu próprio país é compreensível e aceitável. Ainda que tenha qualquer tipo de culpa por seus atos, mesmo que com a justificativa do bem maior, certamente já pagou por eles nos longos anos de prisão.

Historiadores analisam suas ligações com líderes corruptos e que desrespeitaram os direitos humanos. Manteve laços estreitos com o ditador cubano Fidel Castro e o líder palestino Yasser Arafat. Como presidente, em 1997, concedeu a maior honraria de seu país ao ditador da Líbia, o coronel Muammar Gaddafi. O mesmo prêmio foi concedido ao corrupto presidente da Indonésia, Suharto. Ambos fizeram doações ao ANC, partido de Mandela.

Como presidente, Mandela teve contato com líderes dos mais diversos espectros ideológicos e reinseriu a África do Sul na comunidade internacional de forma brilhante. Como diplomata honorário, soube respeitar diferenças sem deixar de lado suas convicções. Com Suharto, insistiu para que libertasse e negociasse com Xanana Gusmão, o líder separatista do Timor Leste. Se foi hábil em angariar doações ao partido, elas jamais o fizeram mudar suas convicções ou se calar por conveniência.

Mandela foi excepcional, mas sua aura de santidade impede que se conheça sua biografia de forma completa. Muitos dos seus apoiadores radicais usam sua grandeza para omitir seu histórico de violência política. Muitos de seus opositores interpretam fatos de acordo com a sua conveniência ideológica. Conhecer o homem, ao invés do ícone, traz a Mandela um olhar mais humano e justo, certamente mais digno da sua grandiosidade incontestável.

Post comemorativo ao lançamento do novo álbum de Edi Rock, Origens Parte 2 – Ontem Hoje e Amanhã.

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Edi Rock

Adriano Lucchesi é administrador de empresas (FGV), MBA em economia do turismo (FEA-USP), fundador da Atlantic Connection Travel (1996) e da ACT Afrika Tours & Safaris (2009), operadoras de viagem especializadas em África e Ilhas do Índico, com sedes em São Paulo, Cape Town e Odessa.

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