Cape to Cairo: os grandes heróis da travessia

Crossley light trucks
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A magia de atravessar o continente africano atingiu corações e mentes nos últimos 120 anos. Heróis da famosa travessia Cape to Cairo enfrentaram inúmeros desafios e dificuldades para atingir um objetivo comum, com significados e motivações diferentes para cada indivíduo. Neste post, contamos as histórias e proezas de alguns dos pioneiros e recordistas da travessia. Histórias extraordinárias que contribuem com a aura épica da jornada. Na foto acima, os Crossley 25/30 que completaram o primeiro Cape to Cairo motorizado na fábrica em Manchester, antes da travessia. Boa leitura !

O pioneiro rebelde

Ewart Scott Grogan (1874–1967) foi um explorador, político e empresário inglês. Estudou nos renomados Winchester College e Jesus College, ambos em Cambridge, mas saiu sem se formar. Foi expulso da escola e da universidade. Posteriormente, passou algum tempo na Slade School of Art antes de ir para Bulawayo, na Rodésia do Sul (atual Zimbábue), para ajudar a defender a cidade na Segunda Guerra de Matabele.

Grogan se apaixonou por Gertrude Watt, a irmã de uma colega de classe de Cambridge, mas o padrasto dela desaprovou a união: o pretendente vinha de uma família respeitável, mas sua própria vida tinha pouco a recomendar. Ao propor tornar-se o primeiro homem a cumprir a jornada Cape to Cairo, o padrasto concordou que esse seria um teste adequado de seu caráter e seriedade.

A primeira expedição Cape to Cairo começou em Cape Town, quando Grogan tinha 24 anos. Chegou ao Cairo em 1900, depois de dois anos e meio de viagem. Foi atacado por leões, hipopótamos e crocodilos, perseguido por caçadores de cabeças e canibais, atormentado por febres e parasitas. Mas voltou para casa com fama e prestígio, transformando-se em uma celebridade. Foi nomeado membro da Royal Geographic Society e conheceu a rainha Victoria.

Em quatro meses de esforço, Grogan escreveu sobre sua jornada no livro From the Cape to Cairo: The First Traverse of Africa From South to North (Ewart Scott Grogan, 1902). Coroando seu sucesso, casou-se com Gertrude em Christ Church, Londres, em 11 de outubro de 1900. Em 1904 o casal foi morar no Quênia e Grogan se transformou em proeminente empresário e político local.

O Hospital Infantil Gertrude’s, localizado em Nairobi, foi fundado em 1947, com a doação de algumas terras pelo coronel Grogan, em memória de sua esposa, Gertrude. O hospital tem hoje diversas filiais, espalhadas nas áreas residenciais da cidade.

Em 2007, o escritor Julian Smith refez a jornada de Grogan pela África e reconta sua vida peculiar no livro Crossing the Heart of Africa: An Odyssey of Love and Adventure (Julian Smith, 2010).

A dama visionária

Apenas 5 anos após a jornada pioneira de Grogan, uma dama marcou seu nome entre as lendas africanas. A inusitada jornada da britânica Mary Hall, com duração de nove meses, foi realizada em 1905 e surpreendeu o universo masculino, incrédulo com a sua inédita chegada ao Cairo. Seu livro A Woman’s Trek From the Cape to Cairo (Mary Hall, 1907) foi por ela apresentado da seguinte forma: “um livro escrito do ponto de vista de uma mulher, sem os clichês de safári e os exageros habituais em todas as coisas africanas”.

Ela não se preocupa em descrever a região de Cape Town a Vic Falls, pois a considera “bem conhecida”, bem como a seção de Cartum ao Cairo. Concentra-se na África Central e levanta uma questão relevante aos estudos feministas do império: na relação dos europeus com as colônias, que diferença faz o gênero? Quais as diferenças, ao longo de uma viagem repleta de riscos e desafios, entre ser homem ou mulher ? Quais as decorrências de ser britânico ou africano, colonizador ou colonizado ?

Mary Hall encara o seu feito extraordinário como mero plano de fundo a sensíveis reflexões, muito à frente do seu tempo. Embora ela não tenha realizado observações científicas ou descoberto características geográficas inéditas, suas façanhas impressionaram suficientemente a Royal Geographical Society, exclusivamente masculina até 1913, para permitir a sua associação.

A primeira expedição motorizada

A expedição Court Treatt foi a primeira a dirigir um veículo a motor de Cape Town até o Cairo. O grupo de seis pessoas partiu em dois caminhões leves Crossley em 13 de setembro de 1924 e chegou ao Cairo em 24 de janeiro de 1926, dezesseis meses e 12.732 milhas mais tarde.

Cape to Cairo: The Record of a Historic Motor Journey (Stella Court Treatt, 1927) é o registro literário da expedição, marcada também por ser a primeira a contar com documentação cinematográfica. O roteiro escolhido atravessava apenas colônias britânicas, seguindo a rota idealizada por Cecil Rhodes.

O ciclista intrépido

O aventureiro escocês Mark Beaumont estabeleceu o recorde mundial de ciclismo do Cairo à Cape Town. Beaumont completou sozinho a extenuante jornada em sua bicicleta de estrada KOGA Solacio Disc, em exatamente 41 dias, 10 horas e 22 minutos. Nessas seis semanas, ele pedalou 10.882 km e passou 439 horas no selim de sua bike.

Beaumont manteve uma média de 257 km diários, e na última semana, em estradas com melhores condições, chegou a mais de 320 km por dia. O ciclismo de longa distância sempre apresenta desafios, mas as condições na África são extremas. Estradas esburacadas, dificuldade na obtenção de alimentos e diversas passagens de fronteira conferem ainda maior valor à sua proeza.

A maratona sem fim e os heróis anônimos

Nicholas Bourne (Inglaterra) correu de Cape Town ao Cairo em 318 dias, de 21 de janeiro a 5 de dezembro de 1998, cobrindo mais de 12.069 km. Em sua segunda tentativa, Bourne consumiu 30 pares de tênis, percorreu mais de 67 km por dia e levantou um milhão de libras para a Born Free Foundation e Save The Children.

Julia Albu (África do Sul), com 80 anos de idade, completou o trajeto em um surrado Toyota Quest, com mais de 20 anos de estrada. My African Conquest: Cape to Cairo at 80 (Julia Albu, 2019) conta a história.

Embora com respeito à determinação, questiono os que buscam recordes de velocidade em motos ou automóveis, muitas vezes colocando em risco não apenas a si mesmos, mas também pedestres, animais e outros motoristas.

A todos os heróis anônimos que conseguiram alcançar seus objetivos pessoais na travessia Cape to Cairo, registro a minha admiração.

Gostou? Este post faz parte do projeto Agulhas – Alexandria, a travessia completa da África do Sul ao Egito, planejada e executada pela Atlantic Connection Travel. Conheça a história completa:
Próximo post: Cape to Cairo: a transição para Agulhas – Alexandria
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Adriano Lucchesi é administrador de empresas (FGV), MBA em economia do turismo (FEA-USP), fundador da Atlantic Connection Travel (1996) e da ACT Afrika Tours & Safaris (2009), operadoras de viagem especializadas em África e Ilhas do Índico, com sedes em São Paulo e Cape Town.

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