Agulhas – Alexandria, parte 3: Zâmbia

Zâmbia_Agulhas to Alexandria
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Dia 20, km 6299, Isoka, Zâmbia (05/06/2015)

A Zâmbia, não por acaso, é um dos meus países favoritos na África. As icônicas cataratas colocaram Livingstone no mapa turístico mundial (Victoria Falls é a cidade vizinha que compartilha as cataratas do outro lado da fronteira, no Zimbábue), mas a Zâmbia tem muito mais a oferecer. Autêntica, simples, ao primeiro olhar, pobre. Conforme se aprofunda o contato com seus vilarejos, suas florestas, suas tradições e principalmente, com os locais, que nunca economizam um sorriso sincero quando os olhos se encontram, percebe-se que a Zâmbia é um país com desafios, mas com riquezas abundantes. A grande queda d’água do rio Zambezi é uma maravilha da natureza. Lusaka é uma das capitais mais simpáticas da África. Os parques intocados de South e North Luangwa são indescritíveis – “floresta encantada” é o que vem à minha mente sempre que penso neles, e nenhum outro parque na África me provoca esta sensação.

O Zambezi acompanha nosso trajeto de Sesheke a Livingstone. Do centro turístico para a capital política, Lusaka, cuja avenida principal chama-se Cairo Road – referência histórica ao início da Great North Road, trecho da estrada que levaria até o Cairo. De Lusaka, desvio para Chipata pela Great East Road, passando pelo Lower Zambezi National Park antes de chegar ao vale do rio Luangwa, a maior concentração de hipopótamos do planeta. Foram necessários 2 dias para percorrer apenas 300 km entre os parques South e North Luangwa, um offroad dificílimo no meio da mata virgem, com direito a uma balsa precária para atravessar o rio Luangwa.

Ao final do longo e extenuante percurso, de volta à Great North Road e próximo da parada de descanso para a última noite na Zâmbia, parei no posto para abastecer e o frentista colocou gasolina ao invés de diesel, mesmo com meu aviso rotineiro. Foi uma comoção: cerca de cinquenta voluntários e curiosos do vilarejo ao lado do posto se aglomeraram em volta da Freelander, o que me deixou tenso com a bagagem e valores. Já estava anoitecendo, e naquele momento eu seria presa fácil para um roubo. Depois de muita confusão, conseguiram drenar o combustível e ninguém tocou em nada. Eu estava cansado, impaciente e desconfiado, mas os sorrisos estavam sempre presentes. Tenho que admitir: a Zâmbia é um exercício de pureza e sensibilidade.

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O rio Zambezi é um polo de atração da vida selvagem. O sunset cruise pelo rio é uma atração imperdível.

The River Club oferece as melhores vistas do Zambezi e inúmeras oportunidades de interação com o rio e as atrações de Livingstone, em um ambiente elegante e autêntico, que conserva as tradições históricas da região.

Uma das grandes atrações da África, compartilhada entre duas cidades e dois países, Livingstone e Victoria Falls são um centro de atividades de aventura e ponto de partida para diversas regiões de safári, em quatro países diferentes.

Em Livingstone, nunca deixo de rever as cataratas e nadar no Zambezi, a poucos metros da queda d’água.

O chá da tarde nas proximidades das cataratas é uma tradição britânica que permanece viva até hoje. Em segundo plano, a “fumaça que troveja” ou Mosi-oa-Tunya, o nome original de Victoria Falls no idioma nativo.

Kazungula, a uma hora de Livingstone, marca o ponto de encontro entre Zâmbia, Zimbábue, Botswana e Namíbia. Também às margens do Zambezi, é a única fronteira quádrupla entre países do mundo, embora a rigor sejam duas fronteiras triplas: por uma centena e meia de metros, Zimbábue e Namíbia não se encontram.

O Livingstone Crocodile Park preserva répteis do Zambezi ao Nilo. Visita educativa e indicada para todas as idades.

Em Lusaka, o Taj Pamodzi foi essencial para descansar e recarregar as baterias. O hotel 5* é um dos melhores do país.

No caminho para Chipata, os mercados de frutas e legumes que acompanham os vilarejos e estradas por todo o país.

O bucólico interior da Zâmbia, no extremo sudeste do país, próximo à fronteira com o Malawi e o Zimbábue.

Locais praticando uma modalidade alternativa de stand-up

South Luangwa National Park, um dos mais preciosos santuários de vida selvagem da África. Fui gentilmente recebido por John Coppinger, lenda do turismo sustentável e fundador da Remote Africa, proprietária do Tafika Camp.

A população de hipopótamos de South Luangwa é estimada em cerca de 13.000 indivíduos, mas as autoridades locais afirmam que o equilíbrio ecológico do parque é ameaçado com mais de 5.000 deles.

South Luangwa é considerado o melhor parque da África para quem deseja encontrar leopardos.

A gigantesca árvore que é uma colônia das cegonhas: mais uma atração espetacular de South Luangwa.

Os safáris noturnos também revelam muitos segredos da vida selvagem, como este fotogênico camaleão.

A partir do Tafika Camp, John Coppinger me orientou sobre uma rota offroad para North Luangwa, passando por pequenas comunidades onde a Remote Africa desenvolve um sensacional trabalho de capacitação e ensino.

O caminho alternativo, que atravessa o Luambe National Park, um parque em recuperação da biodiversidade, não consta nos mapas do GPS e a vegetação fecha em certos pontos a precária estrada de terra, com pedras pontiagudas que ameaçam os pneus. Velocidade baixa e atenção permanente: 2 dias inteiros para transpor apenas 300 km.

Após pernoitar no Chifunda Bush Camp, um acampamento básico às margens do rio Luangwa, a travessia para North Luangwa National Park ocorreu nesta balsa, que apesar de não inspirar segurança, funcionou perfeitamente.

Agradecemos nesta etapa a South African Airways, Tracks4Africa, The River Club (Peter Jones), Taj Pamodzi (Sourav Ghozal) e Remote Africa (John Coppinger).

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Gostou? Este post faz parte do projeto Agulhas – Alexandria, a travessia completa da África do Sul ao Egito, planejada e executada pela Atlantic Connection Travel. Conheça a história completa:
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Adriano Lucchesi é administrador de empresas (FGV), MBA em economia do turismo (FEA-USP), fundador da Atlantic Connection Travel (1996) e da ACT Afrika Tours & Safaris (2009), operadoras de viagem especializadas em África e Ilhas do Índico, com sedes em São Paulo, Cape Town e Odessa.

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