Agulhas – Alexandria, parte 4: Tanzânia

Tanzânia_Agulhas to Alexandria
5 minutos para ler

Dia 25, km 7764, Arusha, Tanzânia (10/06/2015)

Uma decisão estratégica importante foi ganhar tempo no leste da África. São países com muitas atrações, que merecem tempo e profundidade. Já realizei viagens marcantes na região: escalada ao Kilimanjaro, safáris nos principais parques do Quênia, Tanzânia, Uganda e Ruanda, ilha de Zanzibar. Agora, o objetivo era outro: atingir a Etiópia o mais rápido possível, atravessando a Tanzânia e o Quênia, sem desvios e sem atrasos. As estradas são razoáveis, mas ou são muito movimentadas, ou repletas de animais: de cabras e vacas até hienas, chacais e antílopes. Pole pole, sem pressa…

Desde a fronteira em Tunduma, bloqueios policiais constantes e sem trégua ao longo da Tanzânia, infernizaram a viagem. Os policiais adoram veículos estrangeiros e sempre encontram uma razão aleatória para extorquir algum dinheiro. Com educação e firmeza, eu descia do carro repetindo o mantra: estou abaixo dos 50 km/h, meus documentos estão em ordem, já fui parado 20 vezes na Tanzânia e estou à disposição para prosseguir à delegacia mais próxima, mas não vou pagar por uma infração que não cometi. Pole pole, sem pressa…

Foram mais de 7.000 km sem qualquer problema mecânico, chegamos bem em Mbeya e Iringa…mas tivemos a primeira avaria na capital da Tanzânia, Dodoma. O resfriador de óleo do motor foi para o espaço e a água do sistema de arrefecimento transformou-se em um magma gosmento no interior do radiador. Uma tragédia. Quando parei no posto para a checagem de rotina, antes de seguir viagem pela manhã, abri o capô e vi uma cena de terror, aquela gosma por todo lado. Fiz uma malsucedida tentativa de continuar até Arusha, mas percebi que sem o resfriador não iria chegar nem na esquina. Pole pole, sem pressa…

Dodoma não era o lugar ideal para encontrar peças, muito menos para relaxar por alguns dias. Contrariando as possibilidades, consegui encontrar uma mecânica razoável e especializada em Land Rover. Rapidamente, todo o sistema de arrefecimento estava no chão, desmontado para limpeza: a sensação era que jamais sairia dali. O pior é que não havia nenhum resfriador de óleo para Freelander disponível na Tanzânia. Teria que importar da África do Sul ou da Inglaterra, o que levaria algum tempo. Pole pole, sem pressa…

Após dias tensos e dedicados a uma missão impossível, encontrei uma peça usada em Dar es Salaam – a peso de ouro. Quando ela finalmente chegou, juntaram todas as peças espalhadas no chão da oficina, encaixaram de volta no capô, colocaram água no sistema e “The Hero” voltou às estradas. Um verdadeiro milagre. Com muito receio da peça não funcionar e o pesadelo recomeçar, retomamos a jornada parando de 5 em 5 minutos: numa parada verificava o radiador, na outra policiais barrigudos tentavam encontrar um bom motivo para me tomar algum dinheiro. Sem contar as cabras e vacas na estrada. Pole pole, sem pressa…

Chegamos em Arusha prontos para atravessar ao Quênia, contornando o velho e bom Kilimanjaro. Sem gosma no radiador, sem atropelar as cabras e sem pagar um tostão aos policiais. Pole pole, uma semana atrasado.

*** *** ***

Pole Pole, em swahili, significa devagar, um passo de cada vez, sem pressa…

Sul da Tanzânia, proximidades da fronteira Nakonde / Tunduma: rebanho atravessa a estrada de forma ordeira, porém fora da faixa de pedestres. A velocidade máxima nas áreas urbanas é 50 km/h, perto de escolas 30 km/h.

Mais adiante, chegando em Mbeya, cabras e transeunte atravessando na faixa, porém sem a mesma compactação…Importante notar a atuação do pastor de bicicleta.

Mbeya é a cidade mais importante do sul da Tanzânia, um polo agrícola que abastece o mercado interno e os países vizinhos (Congo, Zâmbia, Malawi) com grãos, frutas e chá. A estação de trem de Mbeya está na rota do TAZARA, a estrada de ferro de 1.860 km que conecta o porto de Dar es Salaam a Kapiri Mposhi, na Zâmbia.

Em 15 dias, os trens de luxo Rovos Rail cobrem a rota clássica de Cape Town a Dar es Salaam, visitando as principais atrações do percurso e utilizando a mesma rota do Tazara a partir de Kapiri Mposhi até Dar es Salaam, via Mbeya. Apenas para connoisseurs, fale conosco.

Na região de Iringa, notamos alguns veículos com design alternativo.

O vilarejo de Migole fica às margens da represa Mtera, onde as canoas constituem importante meio de transporte.

Dodoma, local do primeiro imprevisto mecânico é a capital oficial da Tanzânia desde 1996. Muitas embaixadas e repartições do governo, entretanto, permanecem na cidade principal do país, Dar es Salaam.

Entrada do Lake Manyara: com Tarangire, Ngorongoro e Serengeti, compõe o concorrido Circuito Norte de safári.

O inconfundível e tímido cume do Kilimanjaro, sempre escondido atrás de nuvens densas. A neve ainda está presente.

As crianças de Mkuu, vilarejo na base do Kilimanjaro, quase na fronteira com o Quênia.

Agradecemos nesta etapa a South African Airways, Tracks4Africa e Serena Hotels (Rosemary Mugambi).

*
*
*

Gostou? Este post faz parte do projeto Agulhas – Alexandria, a travessia completa da África do Sul ao Egito, planejada e executada pela Atlantic Connection Travel. Conheça a história completa:
Próximo post: Agulhas – Alexandria, parte 5: Quênia
Post anterior: Agulhas – Alexandria, parte 3: Zâmbia

Adriano Lucchesi é administrador de empresas (FGV), MBA em economia do turismo (FEA-USP), fundador da Atlantic Connection Travel (1996) e da ACT Afrika Tours & Safaris (2009), operadoras de viagem especializadas em África e Ilhas do Índico, com sedes em São Paulo, Cape Town e Odessa.

Você também pode gostar

Deixe um comentário

Translate »