Agulhas – Alexandria, parte 7: Sudão

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6 minutos para ler

Dia 42, km 9866 + 2442, Wadi Halfa, Sudão (27/06/2015)

O enigmático Sudão sempre despertou-me enorme curiosidade e fascinação, mas seu isolamento histórico e político dificulta qualquer plano de viagem – o que se reflete na dificuldade para obtenção do visto. Ao mesmo tempo em que a mídia internacional sempre evidencia os aspectos negativos do país, os relatos de quem viaja pelo Sudão são invariavelmente positivos. Vale destacar a introdução sobre o país no Lonely Planet: “Sudanese hospitality remains second to none, and for most people, travelling through Sudan is such an eye-opening and rewarding experience that many come away saying that Sudan was their favourite country in Africa”.

Com essa frase em mente, dois meses de espera angustiada pelo meu visto e comentários gerais dos etíopes sobre a irresponsabilidade de pisar no Sudão, parti de Gondar às 5:30 de uma fresca manhã. Não sem algum atraso, causado pela feroz competição entre os motoristas das surradas lotações. Contou-me um deles, mais tarde, que no calor são escassos os passageiros com destino a Metema, fronteira da Etiópia com o Sudão. Só é viável viajar sem derreter pela manhã, bem cedo. A rota lucra mais com o transporte de carga, mas mesmo assim não podem partir enquanto o veículo não fica bem lotado, quente e desconfortável para todos.

Conforme nos aproximávamos da fronteira, a temperatura ia subindo ao ritmo de grau por quilômetro. Ao chegar em Metema, tive que arrancar minha calça e trocar por uma bermuda, respeitosamente cobrindo o joelho, atrás da única árvore do vilarejo. Os locais riram da cena grotesca, quando perdi o equilíbrio de cueca, meias e mochila. Logo em seguida encontrei com o Hassab, sudanês de Cartum voltando de Dubai. Embora tivesse o bilhete aéreo de Addis para Cartum, preferiu fazer a viagem por terra – não consigo imaginar uma razão plausível para isso, a não ser purificar a alma durante o período do Ramadan.


O resultado prático é que ele me ajudou de forma notável nesta etapa dificílima da jornada, e facilitou bastante a minha entrada no Sudão. Os oficiais, embora sérios e de poucas palavras, não dificultaram, o que é comum. Com mulas carregando as nossas malas, chegamos a Gallabat, vilarejo do lado sudanês da fronteira. Esperamos mais de uma hora por algum transporte para Gedaref, dentro de um surreal restaurante com muitas, muitas moscas, a 40 graus na sombra. Embarcamos amontoados com enormes sacos de carvão. Em Gedaref pegamos um belo ônibus com decoração islâmica e por volta das 22:00 chegamos em Cartum.

Chegar em Cartum
à noite, em pleno Ramadan, sem falar uma palavra de árabe, morto de fome e cansaço, não é uma tarefa trivial. Estava tão exausto na viagem que nem me preocupei com a chegada. Só entendi o tamanho do problema quando encarei aquele caos de ônibus, tuk tuks e pessoas chegando e saindo na estação. Em transe, lembrando da minha cama em Cape Town, ouvi uma voz dizendo baixinho, quase tímida: “Please stay in my home. You are my guest”. Era o Hassab, que mesmo sob meus protestos, não me deixou pagar nem um refresco desde a fronteira. A cada reclamação minha, ele apenas sorria e dizia: “Welcome to Sudan”.

A hospitalidade do Sudão não foi surpresa, mas a modernidade de Cartum ultrapassou a minha expectativa. Desde a saída de Cape Town, foi a cidade grande mais moderna, segura e organizada. O problema é cozinhar aos poucos, com os mais de 44 graus ao longo do dia. Por isso, a cidade funciona melhor à noite, especialmente durante o Ramadan. Bons restaurantes, conversas com os locais e o encontro do Blue Nile com o White Nile são algumas das experiências marcantes. Bem como a vigilância constante dos policiais sobre os estrangeiros, especialmente quando se porta uma máquina fotográfica – poderosa arma contra o isolamento.

De Cartum, foram 941 km em um ônibus confortável até Wadi Halfa, última cidade sudanesa antes da fronteira com o Egito. Calor escaldante, o pior hotel de toda a viagem e uma breve escalada na pequena montanha próxima ao centro da cidade marcaram minha breve e inesquecível passagem pelo fim do mundo. Estava próximo da última fronteira da travessia. Alexandria deixava de ser apenas uma miragem, uma fantasia.

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Ao chegar em Gallabat, o senhor que também estava na minha lotação desde Gondar pegou suas coisas e saiu andando em direção ao deserto, até desaparacer no horizonte.

Cargas de todos os tipos seguem para Gedaref, onde serão vendidas no mercado da cidade.

No momento da oração, o ônibus para e todos descem.

A refeição é compartilhada e ninguém é deixado de lado, mesmo os humildes e que não seguem a fé islâmica.

Vista de Cartum, a partir do ponto onde o Nilo Azul se encontra com o Nilo Branco.

Pescadores tiram o seu sustento das águas sagradas do Nilo.

A conurbação de três cidades, Cartum, Cartum Norte e Omdurman originou uma metrópole de contrastes. A modernidade do centro não é encontrada nas regiões periféricas, que sofrem com a estagnação econômica e a seca.

O Nilo faz um caprichoso contorno na saída de Cartum, que na antiguidade, marcava a fronteira sul da civilização Núbia. As Pirâmides de Meroë repousam em sítio arqueológico nesta região, a 235 km da capital. Os limites da Núbia chegaram até a região de Aswan no Egito (norte), o mar Vermelho (leste) e o deserto da Líbia (oeste).

Parada para descanso em posto próximo a Dongola.

A aparência de um posto de gasolina no Sudão, às margens do Nilo.

Montanhas no deserto do Sahara, próximas a Semna.

Faces do Sudão, composto por mais de 600 grupos étnicos diferentes.

A pequena montanha de Wadi Halfa onde fiquei a maior parte do tempo, aproveitando a vista e a brisa quente.

Fim de tarde no topo da montanha. Com o pôr do sol, termina mais um dia de jejum no Ramadan.

Wadi Halfa despertando do Ramadan, no começo da minha última noite no Sudão.

Agradecemos nesta etapa a South African Airways, Ethiopian Airlines e Tracks4Africa.

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Gostou? Este post faz parte do projeto Agulhas – Alexandria, a travessia completa da África do Sul ao Egito, planejada e executada pela Atlantic Connection Travel. Conheça a história completa:
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Adriano Lucchesi é administrador de empresas (FGV), MBA em economia do turismo (FEA-USP), fundador da Atlantic Connection Travel (1996) e da ACT Afrika Tours & Safaris (2009), operadoras de viagem especializadas em África e Ilhas do Índico, com sedes em São Paulo, Cape Town e Odessa.

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