Agulhas – Alexandria, parte 5: Quênia

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Dia 29, km 8955, Moyale, Quênia (14/06/2015)

Nanyuki fica exatamente na linha do Equador, 200 km ao norte de Nairobi e na base do Mount Kenya, a segunda montanha mais alta da África. Marca o limite da parte turística do Quênia. A partir daí, começa uma região muito isolada que vai de Isiolo até Moyale, na fronteira norte do país. Com 504 km, o trecho ficou conhecido como “Road to Hell”, devido às péssimas condições da interminável e precária estrada de terra, única ligação viável com o sul da Etiópia. Buracos, ondulações e pedras pontiagudas devoram os pneus e acabam com a suspensão do veículo…e com a coluna dos ocupantes. Para melhorar, banditismo e guerras tribais são comuns na região. Historicamente, a parte mais temida de toda a travessia, o caminho do inferno.

Mas a “Road to Hell” já não é mais tão diabólica. Com o projeto de construção do corredor de desenvolvimento Mombasa – Adis Abeba, os governos do Quênia e Etiópia, através de contratos com empreiteiras chinesas e turcas, estão construindo novas estradas na região. Isolada e esquecida há séculos, a sofrida população local finalmente tem um sopro de esperança de tempos melhores. Cerca de 70% da temida estrada está refeita em paralelo à antiga, asfaltada e transformou-se rapidamente em uma das melhores estradas do leste da África. Nos 30% que ainda não foram construídos, ainda nota-se a presença do belzebu. ***

Especialmente no trecho ao sul de Marsabit, a estrada é demoníaca, trecho montanhoso, esburacado, empoçado, cheio de pedras pontiagudas. A velocidade média é de 10 km/h. Se tiver que parar no meio do nada, não deixe de interagir com os locais que surgem das moitas, sempre com trajes peculiares e rifles a tiracolo. A arma pode ser útil com algum animal selvagem, mas o objetivo é intimidar as tribos rivais. Armado apenas com meu modesto machadinho, não deixava de cumprimentar todos os nativos, que sempre retribuíam e jamais foram hostis. Os policiais rodoviários, nesta região, foram genuinamente solícitos e acolhedores.

Ao longo dos anos, nomes como Isiolo, Merille, Marsabit, Turbi, Moyale, me despertaram fascínio e respeito. Ao sair de Nanyuki, estava visivelmente tenso. Em 2005, o Massacre de Turbi ceifou 60 vidas da tribo Gabbra, atacada pela tribo Borana. Das 60 vítimas, 22 eram crianças. Mais de 6.000 pessoas fugiram para Marsabit e o governo de Nairobi sempre fechou os olhos para os sérios problemas na região.

A minha passagem foi pacífica e marcante. Uma região que aos poucos sai do esquecimento absoluto, e gera um choque cultural como poucas vezes testemunhei em qualquer parte da Terra. Refleti se a alcunha “Road to Hell” seria exclusiva para aqueles que estão estagnados no atraso e na pobreza, e não para os que estão apenas de passagem. Mesmo assim, o apelido deixou de ser apropriado para o distante norte. Ele qualifica com maior precisão os caminhos dos subúrbios infernais de Nairobi.

*** dados de 2015; as obras foram concluídas em 2016 no norte do Quênia e em 2019 no sul da Etiópia.

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Entramos no Quênia por Oloitokitok, contornando o Kilimanjaro e passando pelo Amboseli National Park. Antes de chegar à Nairobi, a estrada Mombasa – Nairobi ganhou o prêmio da mais perigosa de toda a travessia.

Estima-se que 2,5 milhões de pessoas morem em favelas em Nairobi.

A população da capital é de 4,5 milhões e da região metropolitana de Nairobi 9,5 milhões.

Kibera é uma das maiores favelas da África, a apenas 5 km do centro de Nairobi. População de 250.000 pessoas.

Nanyuki marca o final do hemisfério sul na travessia e para muitos, o fim do mundo civilizado. Também é um dos pontos de partida para a escalada do Mount Kenya, mais técnica que a do Kilimanjaro.

Nuvens caprichosamente seguindo a silhueta do Mount Kenya, o segundo pico mais alto da África.

As indicações do caminho do inferno até Moyale, fronteira com a Etiópia.

Road To Hell, a original.

Cooperação sino-queniana construindo estradas nos rincões da África.

Road to Hell, após os chineses.

Formações rochosas próximas a Archers Post.

A terras da região pertencem ao governo e são um assentamento do povo Samburu.

A criação de camelos é uma das atividades pastoris do povo samburu.

Reunião de mulheres samburu na região de Merille.

Mulher samburu nas proximidades de Laisamis.

O povo Gabbra, nômade e pastoril, tem origem na Somália e deslocou-se ao norte do Quênia no século XV.

A moradia do povo Gabbra, que segue a fé islâmica, chama-se mindasse. São tendas leves, feitas de raízes de acácia e cobertas com esteiras de sisal, tecidos e peles de camelo.

Cada mindasse é dividida em quatro partes; uma para visitantes masculinos, uma para visitas femininas, uma privada para os pais e uma para os filhos. Podem ser completamente desmontadas e convertidas em um palanquim carregado por camelos, facilitando o estilo de vida nômade do povo Gabbra.

Mercado abandonado próximo a Merille.

Mulher da tribo borana.

Centro de Marsabit. A viagem de ônibus entre Nairobi e Moyale, via Marsabit, tinha a duração de três dias de tortura.

Chegando na fronteira com a Etiópia. Existem duas “Moyale”, uma do lado queniano e uma do lado etíope.

Agradecemos nesta etapa a South African Airways e Tracks4Africa.

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Gostou? Este post faz parte do projeto Agulhas – Alexandria, a travessia completa da África do Sul ao Egito, planejada e executada pela Atlantic Connection Travel. Conheça a história completa:
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Adriano Lucchesi é administrador de empresas (FGV), MBA em economia do turismo (FEA-USP), fundador da Atlantic Connection Travel (1996) e da ACT Afrika Tours & Safaris (2009), operadoras de viagem especializadas em África e Ilhas do Índico, com sedes em São Paulo, Cape Town e Odessa.

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