Agulhas – Alexandria, parte 8: Egito

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Dia 44, km 9866 + 3889, Alexandria, Egito (29/06/2015)

Em 2010, cinco anos antes do Agulhas – Alexandria, realizei uma viagem mágica do Cairo até Istambul. Também foi uma travessia por terra, com transporte público, passando por Egito, Jordânia, Líbano, Síria e Turquia. Um dos objetivos era analisar a viabilidade de fazer esta travessia com o meu veículo. Já planejava fazer o Cape to Cairo e cogitava prosseguir do Cairo a Odessa, na Ucrânia, a cidade da minha esposa. No fim do mesmo ano de 2010 começaram os acontecimentos que ficaram marcados como a Primavera Árabe.

Muhammad Hosni Said Mubarak governou o Egito por 30 anos, desde o assassinato de Anwar Al Sadat em 1981 até a sua renúncia em 2011. O Egito, que gozava de certa estabilidade sob a ditadura de Mubarak, colapsou politicamente, sucumbiu ao terrorismo e até hoje enfrenta uma série de dificuldades econômicas e sociais. Em 2010, sob Mubarak, o turismo era um dos pilares da economia egípcia. Testemunhei multidões de turistas em todas as atrações que visitei no Cairo, Luxor, Vale do Nilo, Sinai e Sharm-el-Sheikh. Depois da revolução, praticamente não se via estrangeiros no país. Havia uma sensação generalizada de insegurança e pessimismo.

Até 2011 era possível sair da Europa em veículo particular e chegar até o Egito, atravessando a Turquia, Síria, Jordânia e Israel. Mas a fronteira do Egito para o Sudão estava fechada, acabando com os planos daqueles que sonhavam ir além do Sahara. Com a Primavera Árabe, veio a guerra na Síria, inviabilizando a passagem pelo Oriente Médio. Surpreendentemente, mesmo com o cenário adverso, em 2014 Egito e Sudão reabriram a fronteira Qustul-Wadi Halfa, reativando o meu sonho da travessia Cape to Cairo – sem a extensão até Odessa.

Relembrando de tudo isso nas longas horas de estrada, descobri um detalhe que me surpreendeu. Se chegasse em Alexandria, me faltaria apenas um pequeno trecho, Istambul – Odessa, para completar a travessia Cape Town – Cairo – Istambul – Moscou – Beijing – Bangkok – Singapura, exclusivamente por terra, em viagens diferentes. Jamais tinha pensado nisso, nunca foi um objetivo programado. Fiquei feliz e pensativo com a constatação. Entretanto, ainda não havia chegado em Alexandria. Estava numa espelunca em Wadi Halfa, tentando dormir, escolhendo entre ser devorado pelos mosquitos ou morrer de calor.

Às 6:30 da manhã, o confuso ônibus com intermináveis pacotes, malas e pessoas esquisitas parte rumo à última fronteira, a 15 minutos dali. Naquele forno a céu aberto, contando a saída do Sudão e a entrada no Egito, foram apenas 7 horas para cumprir as formalidades alfandegárias e prosseguir viagem, já depois das 14:00 locais. Muita fila, alguma confusão, sensação de sauna seca. Mais um breve deslocamento de ônibus até Qustul, para a travessia de ferry ao outro lado do Lago Nasser, em Abu Simbel. Tudo é confuso e quente, mas não há hostilidade e ainda não fui sequestrado. A longa viagem só terminou às 22:00, na chegada em Aswan.

Pressionado pelo tempo, sonhando com um banho, uma refeição e uma cama limpa abaixo dos 40 graus, saí de um ônibus e entrei em outro para o Cairo. Foi uma decisão repentina, o plano era dormir em Aswan. Foram mais 12 horas de pesadelo até chegar ao Cairo, sair correndo do ônibus, comprar um bilhete de trem (bem mais confortável e agradável) até Alexandria. Mais 3 horas no trem e um táxi: após quase 3 dias viajando non-stop desde Cartum, suado, sujo, morto de sede, faminto, com dores na coluna do pescoço ao cóccix, entrei no meu espartano quarto luxo de US$ 19 do Hotel Union, com varanda e vista frontal para o Mediterrâneo.


Jamais entrei em um quarto de hotel com tamanha felicidade e alívio. Estava no Mediterrâneo, e após 44 dias e quase 14.000 kms, havia chegado em segurança ao meu destino final.
A minha missão estava cumprida.

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O Nilo disputa com o Amazonas qual o rio mais longo do planeta. Pesquisadores descobrem fontes mais remotas e nunca se chega a uma extensão definitiva. A nascente do Nilo Branco (White Nile) ocorre em Jinja, no Lago Victoria, Uganda. Depois de passar por outros dois lagos, Kyoga e Albert, o Nilo Branco atravessa o Sudão do Sul e encontra o Nilo Azul (Blue Nile) em Cartum. O Nilo Azul nasce no Lago Tana, entre as cidades de Gondar e Bahir Dar, na Etiópia. Depois do encontro em Cartum, o Nilo segue unificado até o seu delta no Mediterrâneo, de Alexandria a Port Said.

A construção da represa de Aswan (1960 – 1970), fez surgir no curso do Nilo o Lago Nasser (Egito) ou Lago Nubia (Sudão) – mesmo lago, nomes diferentes de cada lado da fronteira.

Povoados núbios foram alagados e realocados em outras regiões.

A importância hídrica, geopolítica e estratégica do lago Nasser e da instável fronteira, por longos anos, inviabilizou a travessia Cape to Cairo. Crises constantes entre os dois governos mantiveram a fronteira fechada em diversos momentos, desde 1956 (independência do Sudão) até 2014, quando Qustul foi reaberta. Em 2017, foi a vez de Argeen.

A inevitável foto nas pirâmides. Mas na viagem de 2010, Cairo – Istambul.

Protestos em Alexandria no início de fevereiro de 2011, antecedendo a renúncia de Mubarak, que ocorreu em 11/02/2011. Estima-se que a fortuna da família no exterior seja da ordem de US$ 70 bilhões. Foto de Mohamed Adel.

Entrei no quarto do Union Hotel, no final da tarde do dia 29/06/2015, em um estado deplorável; tirei esta foto do flanco leste da Corniche, no Eastern Harbour de Alexandria e fui correndo tomar um banho.

Entre o longo banho e um jantar árabe à beira do Mediterrâno, captei o pôr do sol da chegada em Alexandria.

Finalmente asseado e alimentado, muito feliz por chegar, brisa do Mediterrâneo no rosto e vista da Corniche: a varanda do meu quarto foi o melhor lugar do mundo. Hora de descansar, amanhã é o dia da Água de Alexandria.

Agradecemos nesta etapa a South African Airways, Ethiopian Airlines e Tracks4Africa.

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Gostou? Este post faz parte do projeto Agulhas – Alexandria, a travessia completa da África do Sul ao Egito, planejada e executada pela Atlantic Connection Travel. Conheça a história completa:
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Adriano Lucchesi é administrador de empresas (FGV), MBA em economia do turismo (FEA-USP), fundador da Atlantic Connection Travel (1996) e da ACT Afrika Tours & Safaris (2009), operadoras de viagem especializadas em África e Ilhas do Índico, com sedes em São Paulo, Cape Town e Odessa.

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