Agulhas – Alexandria, epílogo 1: A Água de Alexandria

Água de Alexandria
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Dormi com as janelas abertas, sentindo a brisa do Mediterrâneo e a comemoração dos alexandrinos pelo final do Ramadan. A sensação simultânea de cansaço e realização me fez recordar de Moshi, no retorno da escalada do Kilimanjaro. Conquistas diferentes, mas a escalada levou 5 dias, enquanto a travessia foram 44 dias de execução e duas décadas de insistência. Levarei sempre comigo o sabor do dia da chegada em Alexandria.

Ao acordar no dia seguinte, todas as sensações ainda estão presentes, mas o cansaço já é menor e a emoção começa a dar lugar à razão. Teria muito tempo para refletir sobre tudo o que aconteceu desde a partida de Cape Town, mas apenas dois dias para Alexandria. Já tinha comprado passagem para a Catania e os atrasos na Tanzânia e Etiópia apertaram bastante o meu tempo na reta final da travessia.

Uma primeira reflexão sobre tudo o que aconteceu desde a partida me trazia uma enorme gratidão à África. Nenhuma tentativa de furto ou roubo, nenhuma situação de insegurança ou maior risco. Tudo foi executado conforme o planejamento e sem imprevistos com maiores consequências. Tinha a nítida sensação que todas as minhas viagens na África, de alguma forma, se conectavam através desta.

A parte final foi realmente muito puxada. Em função do problema mecânico em Dodoma, das dificuldades burocráticas em Addis, das chuvas na Etiópia e do calor no Sudão. Procurei balancear o escasso tempo disponível elegendo regiões onde faria sentido dispensar mais atenção e outras onde seria mais sensato acelerar. Gostaria muito de ter dedicado mais tempo ao Sudão, mas as circunstâncias não permitiram.

Namíbia e Zâmbia são países que visito com frequência, mas pude aprofundar ainda mais com os apoios e convites que recebemos. Tanzânia e Quênia possuem uma política protecionista de turismo, que torna proibitiva a taxa para os veículos estrangeiros entrarem nos parques nacionais, forçando a contratação de transporte e guias locais. Conheço bem os principais parques nacionais da região, mas gostaria de ter desviado em alguns parques secundários, especificamente no sul da Tanzânia e no oeste do Quênia. Entretanto, também comprometeria o veículo e o limite de tempo. A Etiópia terá atenção especial na etapa de retorno, com melhores condições climáticas, e o Egito já foi bem explorado no passado, embora seja a minha primeira vez em Alexandria.

Mesmo com a nítida sensação de decadência, meu primeiro contato com a cidade me deixou fascinado. Não perdi tempo e saí pela Corniche, a avenida que segue a orla do mar. Queria encontrar um lugar para nadar no Mediterrâneo. Ainda tinha uma importante tarefa a cumprir: a água de Cape Agulhas, com a mistura sagrada do Atlântico e do Índico, iria se juntar à água do Mediterrâneo. E vice-versa.

Fui andando até o Forte de Qaitbay, na ponta da Ilha de Pharos. Notei que o mapa de Alexandria não mudou muito nos últimos 2.000 anos…

Construído pelo Sultão de Qaitbay em 1477, o Forte localiza-se onde um dia esteve o Farol de Alexandria, uma das sete maravilhas do mundo antigo.

Castigado por três terremotos entre 956 e 1323, o Farol de Alexandria colapsou e ficou em ruínas. Parte de sua estrutura encontra-se submersa até hoje. O que restou em terra foi utilizado na construção do Forte de Qaitbay.

Não poderia existir um local mais perfeito para o encontro do Atlântico, do Índico…e do Mediterrâneo. Procurei um bom local para nadar, mas as pedras de contenção e muitas famílias visitando o forte me desanimaram, não era um local apropriado para banho. Quando lembrei que o Nilo também deságua ali perto, tive a convicção inequívoca que se tratava de uma grande celebração das águas.

Mesmo assim, procurei alguém para tirar a foto do meu momento histórico e encontrei o Mohamed, terminando a sua pescaria. Além de esbanjar simpatia, ele me informou ser fotógrafo nas horas vagas. Perfeito.

Expliquei o que iria fazer e a foto que tinha em mente. Ele achou que eu era louco, mas foi muito solícito e atencioso. Armei a minha Canon no tripé, preparamos o enquadramento, distância, todos os detalhes. Meu último comentário para o Mohamed foi lembrá-lo que tudo seria bem rápido, pois notei que as pedras pareciam escorregadias e instáveis.

Peguei a garrafa triunfante, saboreando a doce sensação do objetivo conquistado. Parti para a beira do mar, caminhando cuidadosamente no concreto cheio de musgo. Tomei a melhor posição para a foto histórica, abri a tampa da garrafa, despejei solenemente metade no Mediterrâneo e curvei-me para completar a outra metade.

Nesse exato momento, escorreguei da forma mais patética que alguém já escorregou desde a construção das pirâmides. Caí no mar, no meio das pedras, concreto, sujeira e mariscos. No balanço da maré, me esforçava para voltar à terra firme. De relance, consegui avistar o Mohamed desesperado, sem saber se me ajudava ou se tirava fotos.

Morrendo de vergonha, consegui sair da água com a fusão do Atlântico, Índico e Mediterrâneo. Mohamed veio correndo me acudir. Foi ele que notou os profundos cortes e ferimentos no meu pé e perna direita. Tentou me levar ao pronto-socorro, mas eu declinei polidamente, agradecendo sua preocupação e as fotos. Molhado, ensanguentado e com a garrafinha mágica nas mãos.

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Por tantas e tantas vezes, mesmo antes da partida, imaginei como seria esse momento de celebração, caso chegasse a Alexandria. Mas jamais poderia elaborar uma história tão grotesca e tão marcante, que guardo com carinho na memória e nas diversas cicatrizes que ganhei na ocasião.

Voltei mancando e andando para o Union Hotel, tentando limpar o sangue da perna para que as pessoas não ficassem me olhando com cara de aflição. A dor foi aumentando, sorriso no rosto e leveza na alma.

Estava oficialmente encerrada a minha travessia.

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Gostou? Este post faz parte do projeto Agulhas – Alexandria, a travessia completa da África do Sul ao Egito, planejada e executada pela Atlantic Connection Travel. Conheça a história completa:
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Adriano Lucchesi é administrador de empresas (FGV), MBA em economia do turismo (FEA-USP), fundador da Atlantic Connection Travel (1996) e da ACT Afrika Tours & Safaris (2009), operadoras de viagem especializadas em África e Ilhas do Índico, com sedes em São Paulo, Cape Town e Odessa.

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